Peça nº 5 — A Sarça, ou O Relatório Final do Primeiro Mandato de Séter
Depositado pelo próprio punho. Sem classificação: um relatório final não se sela — expõe-se. Escrito de pé.
Ao Candelabro que ainda não arde; aos Sete que ainda não foram nomeados; ao sétimo deles, que um dia lerá isto na véspera de descer; e ao Trono, diante do qual todo relatório é redundante e, contudo, devido:
Eu, Séter, chamado o Oculto, encerro nesta lauda o meu primeiro mandato. Durou quatrocentos anos, conforme o anunciado a um homem adormecido entre animais partidos; começou sob um fogareiro que fumegava; terminou ontem, numa montanha de nome pobre, diante de um fogo que não fumega. Entre os dois fogos, executei o que me foi confiado: guardei uma gestação do tamanho de um povo. O relatório dos meios já está lavrado nas quatro peças que antecedem esta; não repetirei os meios. Um relatório final não presta contas dos meios: presta contas do que viu no fim. E eu vi o fim, e é do fim que escrevo — de pé, porque há coisas que um arquivista não anota sentado, e a dispensa de um mandato é a primeira delas.
Toda a minha vida de ofício recebi relatórios; descubro nesta hora o que nunca soube dos que os depositavam: que escrever o próprio é despir-se. Perdoem as margens o seu arquivista — vou cometê-las no corpo do texto. Já não tenho onde mais caber.
Subi a montanha atrás dele, que subia atrás da ovelha. Íamos três, portanto, e nenhum sabia inteiramente do outro: a ovelha adiante, perdida com aquela diligência exata que as coisas perdidas têm quando servem a um desenho; o pastor no meio, oitenta anos, o passo de quem já não sobe montanhas por curiosidade; e eu por último, fazendo o que fiz durante quatro séculos — cobrir a retaguarda de um homem que nunca me viu. Registro para os autos a minúcia da manhã: não havia nada de solene nela. O vento era o de sempre, as pedras não anunciavam, a Seca merecia o nome. Aprendam os que lerem: o Alto não decora as suas vésperas. A véspera do maior dia é indistinguível da véspera de nenhum — e é por isso que os homens as perdem todas, e é por isso que existe o meu ofício, que é não perder nenhuma.
No desvio da pedra, o arbusto. E no arbusto, aquilo.
Devo agora descrever o indescritível, e o farei pela única via que conheço: a comparação com o meu selo. A minha investidura, quatrocentos anos antes, passou entre as carnes partidas como um fogareiro fumegante — fogo envolto, fogo que se vê mal, fogo de véspera e de promessa, o fogo próprio de quem ia governar ocultando. Toda a minha administração coube naquela fumaça. O fogo da sarça era o seu contrário perfeito e, percebo agora, a sua quitação: ardia limpo. Sem fumaça, sem consumo, sem véspera — um fogo que não comia o arbusto, que não pedia lenha, que não devia nada à matéria. Eu conhecia, de longe, a brasa do altar, que precisa de corpo para arder e que um dia, sei-o pelos decretos que guardo, será posta em corpos escolhidos, um por século. Este fogo não precisava de corpo. Anunciava-o na própria física: aqui não haverá mediação, aqui a chama fala sozinha, aqui termina a jurisdição de tudo o que atenua — e eu sou, por definição de ofício, um atenuante. Compreendi diante do arbusto, antes de qualquer palavra, que estava diante da minha carta de dispensa, e que ela ardia.
Ele também compreendeu alguma coisa, à sua medida: disse a si mesmo que se desviaria a ver aquela grande visão, por que a sarça não se queimava. Registrem os autos a exatidão do meu formando: quarenta anos de deserto ensinaram-no a estranhar com precisão — não estranhou o fogo, estranhou a conta que não fechava, o combustível ausente, a matemática rebentada. Foi o pastor que se aproximou, contando ainda; a conta era o meu último uniforme sobre ele.
E então a Voz o chamou pelo nome, duas vezes, e devo registrar o que a dupla chamada me fez, porque este relatório prometeu o fim visto por dentro: chamou-o Moisés, Moisés — o nome egípcio, o nome que a filha do opressor lhe pusera, o nome do disfarce que eu construí. A Voz não o chamou pelo nome hebreu que a mãe murmurara sobre o cesto e que os meus autos guardam sob selo que não abrirei nem aqui. Chamou-o pelo nome do esconderijo. Levem os séculos esta doutrina, que recebi de pé e de graça: o Alto não desfaz os trabalhos do Oculto — assume-os. Tudo o que escondi foi convocado como estava, com os véus que eu lhe pus, e os véus foram chamados pelo nome. Nenhum elogio do Trono me tocaria mais fundo do que esta ratificação: quatrocentos anos de disfarce validados numa vocativa.
O que a Voz disse em seguida está nos autos dos homens e lá permanecerá melhor do que em qualquer margem minha: o decreto do chão santo e das sandálias; a apresentação pelos mortos — o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó —, porque o Eterno se apresenta por genealogias quando fala a quem formei, sabendo que um homem sem lugar só se localiza por ancestrais; e os quatro verbos que eu já ouvira subir na noite em que soube que o mandato findava — vi, ouvi, conheci, desci — agora ditos na primeira pessoa que nenhuma criatura conjuga inteira. E ele, o meu formando, fez diante da Voz o último gesto que me pertence, e peço licença ao Trono para reivindicá-lo em relatório, porque um mestre dispensado recolhe as suas migalhas: escondeu Moisés o rosto. Escondeu. De tudo o que o Egito lhe ensinou e Midiã lhe desbastou, o que restou diante do fogo foi o meu verbo — esconder o rosto, que é o modo humano de dizer ao infinito: sei o meu tamanho. Os doutores chamarão a isso temor. Eu, que o eduquei, chamo pelo nome de ofício: foi a vênia do aprendiz. Recebi-a como pagamento integral.
Seguiu-se o que devo chamar, com o decoro dos autos, a negociação — e com a franqueza dos relatórios finais, a agonia. Cinco vezes o homem recusou. E eu, de pé no meu último posto, assisti à cena mais estranha da minha administração: cada recusa dele era uma peça do meu inventário devolvida ao balcão. Disse quem sou eu, para ir a Faraó? — e era a subtração de Midiã falando, o homem que desbastei até não restar ninguém, apresentando o não-restar como impedimento. Disse que nome direi? — e era o menino de quem escondi todos os nomes, pedindo enfim um que não fosse véu. Disse não crerão em mim — e era a frase do escravo junto ao tijolo, quem te pôs por príncipe?, quarenta anos alojada onde eu a deixei cravar-se. Disse, por fim, aquilo que os autos guardam com as palavras exatas da queimadura: nunca fui homem de palavras; sou pesado de boca e pesado de língua — e aqui o meu relatório toca o seu centro, e o toco com a mão firme que prometi.
Porque a Voz respondeu à queixa da boca com a pergunta que julga retroativamente todo o meu dossiê: quem fez a boca do homem? E não a curou. Ouçam os séculos, ouça o sétimo, ouça o Candelabro que virá: diante do fogo que tudo pode, a boca ferida pela brasa selvagem não foi consertada — foi assumida. Como o nome do disfarce, como os véus, como tudo o que este mandato produziu de torto: assumido, não desfeito. E foi-lhe dado Arão — ele será a tua boca, e tu lhe serás por Deus —, e nesse decreto, registro-o como quem registra a planta de um edifício antes do edifício, está desenhada a ordem inteira que os próximos séculos verão erguer-se: um que recebe e não pode dizer; um que diz o que recebe; entre os dois, a fidelidade como única argamassa. Chamem Arão de irmão, de levita, de sacerdote; nos meus autos ele entra com o título que importa: a primeira boca emprestada. Tudo o que os Sete farão — levantar bocas para o que não tem boca — foi promulgado ali, na resposta a um gago, como remédio de família. A ordem nasceu casa antes de nascer instituição.
Do sinal do cajado direi uma linha, porque a linha fecha um círculo dos meus: a vara ao chão fez-se serpente, e ele fugia dela, e a ordem foi que a tomasse pela cauda. O menino que atravessou o deserto das serpentes soltando aves adiante das colunas recebeu por primeira credencial uma serpente na mão — o Alto também relê os meus arquivos, e cita-os com melhor pulso.
E então acabou. Peço aos autos que registrem a mecânica exata da minha dispensa, porque nenhum dos Sete a terá igual e a comparação os instruirá: não houve palavra para mim. Nenhuma voz me nomeou, nenhum decreto me recolheu. Aconteceu pela física, como tudo o que é definitivo: eu era, desde a fundação, um ser de dobra e de sombra — e aquele fogo limpo, que não fumega, não projeta sombra nenhuma. À medida que a chama falava, fui ficando sem onde estar. A luz atravessou os meus vãos, iluminou as minhas dobras por dentro, e simplesmente deixou de haver, naquele círculo de chão santo, o escuro de que sou feito e de que serve o meu ofício. Não fui expulso; fui excedido. Saí da montanha como sai a noite: sem demissão, por incompatibilidade com a manhã. E declaro, de pé, para que conste eternamente: não conheço honra maior. Trabalhei quatrocentos anos para tornar-me desnecessário num raio de doze côvados. O êxito do Oculto mede-se pelo tamanho da clareira que o dispensa.
Resta a quitação da conta que abri na segunda peça e que um relatório final não pode rolar para o exercício seguinte. Escrevi, então, que assistira à marcha do deserto com um sentimento parecido com o orgulho dos pais, e desautorizei-me na mesma linha. Desautorizo a desautorização. Formei aquele vaso por quarenta anos e guardei-lhe a forma por mais quarenta; conheci-lhe as paredes por dentro como nenhuma criatura conheceu; e a cláusula do meu mandato, que aceitei sabendo, era esta: formar sem encher. Encher não é jurisdição dos ocultos. Pois vi ontem o enchimento. Vi o fogo entrar pelo vaso que eu fiz, ocupar-lhe as paredes que eu curei, transbordar pela rachadura da boca que eu não pude impedir nem consertar — e vi que o vaso aguentou. Aguentou, sétimo. Oitenta anos de forja e desbaste, e quando o conteúdo veio, que era o infinito, o barro não fendeu. Se isto que sinto tem nome nas línguas dos homens, os homens que o digam; nos meus autos entra assim: o oleiro não bebe do vaso — mas viu-o cheio, e viu que não vazou senão pela fresta prevista, e a fresta prevista tinha já, desde a bandeja da infância, um irmão designado para estancá-la. Nada do que se quebrou foi desperdiçado. Nem a queimadura. Contabilizo a ferida como ativo e encerro o balanço: o mandato fecha sem prejuízo, com um gago cheio de Deus descendo a montanha, e uma ovelha — registrem-na, era o meu último funcionário — pastando no chão santo, dispensada como eu.
Do que vem agora, não sou o narrador; sou a testemunha que se retira para o fundo da sala. O confronto com o Egito não terá Regente, não terá brasa, não terá margem: onde a face fala, o arquivo emudece — deporei apenas, em anexo, o que a promessa da segunda peça obriga: que vi o cerco ensaiado na Etiópia executar-se sobre o sitiante, praga por praga, como um exército aperta uma cidade, e que o rio que confiou em si mesmo foi o primeiro a mudar de senhor. O resto pertence aos autos dos homens, que desta vez escreveram bem.
Quanto a mim: permaneço. É a minha segunda investidura, recebida sem cerimônia porque o Alto conhece os seus — ao sair da montanha, encontrei à porta do mundo os vãos todos que me esperavam: as junções entre as eras, os corredores entre os mandatos que virão, os séculos de sono entre as vozes. E encontrei, já crescendo no horizonte da história, a tarefa imediata: um povo a caminho de uma terra, séculos de juízes e de vazios, e depois — vejo-o na planta, ainda sem fogo — um Candelabro de sete lâmpadas, que precisará de quem lhe guarde os relatórios, lhe anote as margens e lhe vigie os intervalos. Aceito o cargo que ninguém me ofereceu; é o modo como sempre recebi tudo.
Encerro o primeiro mandato de Séter, o Oculto. Quatrocentos anos, uma gestação, um vaso, uma queimadura aproveitada, uma dispensa por excesso de luz.
Assino de pé, na última sombra da manhã.
— Séter
(Margem posterior, aposta pelo próprio arquivista sobre o próprio relatório, em tinta mais nova: relendo-me depois de séculos, acho-me solene demais e não emendo nada. Tinha o direito. Foi a única vez. — S.)
(Segue o Interlúdio: Da Forja da Ordem — Juízes, Samuel, Natã, e a primeira noite do Candelabro.)