Peça nº 4 — Midiã, ou O Segundo Esconderijo

Anotação de Séter, o Oculto, à margem dos autos. Classificação: selada até a véspera do sétimo.

Esta peça cobre quarenta anos, sétimo, e vou dizer-te desde já o que ela não contém: acontecimentos. Se vieste buscar o que os arquivos chamam matéria — batalhas, quedas, coroações —, salta estas laudas e vai à seguinte, onde um arbusto pega fogo e tudo o que os homens consideram história recomeça. Mas se quiseres entender o arbusto, fica. Porque os teus seis irmãos, cada um no seu século, cometeram no princípio o mesmo erro de leitura: julgaram que a formação de um profeta é o que se lhe acrescenta. Passei quarenta anos em Midiã provando o contrário, e esta peça é o auto dessa prova. A formação é o que se subtrai. O Egito foi a forja; anota agora a doutrina da bainha: forja-se por fogo e acréscimo, afia-se por pedra e perda.

Ele chegou ao poço como chegam todos os que me pertencem: sem saber que era esperado. Sentou-se — os fugitivos sentam-se junto aos poços, já te ensinei, porque o poço é o único arquivo do deserto — e antes que a água lhe descansasse no corpo, vieram as filhas do sacerdote com o rebanho, e vieram os pastores que as expulsavam, como as expulsavam todas as tardes, porque a injustiça também tem os seus ofícios de rotina. E ele levantou-se. Repara, sétimo, e mede comigo o intervalo: entre o crime que lhe custou dois reinos e este gesto que poderia custar-lhe a vida que restava, corriam semanas. O homem que fugia por ter defendido um estranho defendeu estranhas na primeira tarde da fuga. Eu não precisei prová-lo; o vaso provou-se sozinho, diante de mim, junto a um poço — e soube então com descanso o que até ali sabia com esperança: aquilo no palácio não fora um acidente da cólera; era o desenho do fundo, o que resta quando tudo é tirado, a única coisa que eu nunca lhe pus e portanto a única que eu nunca poderia perder. Guarda a fórmula, que te servirá para reconhecer os teus: o que um homem faz quando acaba de perder tudo por fazê-lo — isso é o homem.

As moças contaram ao pai que um egípcio as livrara. Um egípcio, sétimo. Sorri comigo nas margens: escondi um hebreu dentro de um príncipe durante quarenta anos, e a primeira testemunha do deserto certificou o disfarce sem que eu movesse um dedo — ele já não sabia parecer outra coisa. O trabalho de Midiã seria exatamente esse: dissolver o egípcio até que, quarenta anos adiante, um Deus pudesse chamar do fogo um nome hebreu e alguém soubesse atender.

Do sacerdote direi mais do que os autos costumam, porque foi peça minha no tabuleiro e das mais finas. Jetro — que também atendia por Reuel, e não estranhes: nas minhas repartições os homens de dois nomes são frequentes — era sacerdote de Midiã, filho da linhagem que Abraão gerou em Queturá e despachou para o oriente com presentes, longe do filho da promessa. Mede a ironia, que levei séculos preparando sem saber para quem: quando o herdeiro da promessa precisou de esconderijo, encontrou abrigo na linhagem dos despachados. O Egito guardava Israel no tijolo; Midiã guardava, sem sabê-lo, a memória lateral da casa de Abraão — um sacerdócio sem escritura, feito de poço, hospitalidade e altar de pedra solta. Sentaram-se à mesa, o fugitivo comeu pão, e o velho sacerdote fez o que os arquivos formais nunca fazem e os arquivos vivos fazem sempre: não perguntou pelo passado; ofereceu futuro. Deu-lhe a filha. Zípora — pássaro, é o que o nome diz — costurou o príncipe ao deserto por dentro, que é o único costurado que não se descose.

E veio o filho, e com o filho a única linha desta peça em que o mudo falou. Porque ele o chamou Gérson, dizendo: peregrino fui em terra estranha — e nas minhas margens está anotado, com a tinta das ocasiões raras, que um nome de filho é a confissão que nenhum interrogatório arranca. O general das canções, o príncipe dos dois nomes, admitiu no nome do primogênito o que jamais admitiria em tribunal: que não cabia, que nunca coubera, que a terra sob os pés fora estranha desde o cesto. Deixou-o escrito onde as confissões duram mais: numa criança. Eu arquivo documentos, sétimo; os homens arquivam-se nos filhos.

Depois, os quarenta anos — e agora a subtração propriamente, verba por verba, porque prometi inventário e o inventário desta peça é de baixas. O protocolo foi o primeiro a morrer: não há precedências entre ovelhas. As letras dormiram — a quem escreveria? o deserto não despacha. A guerra recolheu-se aos ossos como se recolhem as línguas que não se fala: presente, inútil, à espera. As canções do exército calaram porque canção é eco, e o deserto devolve os ecos com juros de silêncio, e um homem cansa de ouvir a própria glória voltar vazia. Sobrou o cajado. Sétimo, medita no cajado comigo, porque é a peça central do enxoval: o Egito lhe ensinara o cetro, que comanda porque pune; o deserto ensinou-lhe o cajado, que governa porque ampara e conta. Um pastor conta o rebanho todas as noites — a conta é o seu ofício inteiro — e aprende, contando, a matemática que nenhum palácio ensina: a de que a perda de um desfaz o todo. Quarenta anos contando ovelhas para um sogro, e cada noite a mesma soma, e cada falta a mesma busca — dizem os meus pares que exagero quando chamo a isso academia; respondo que o homem que dali saiu conduziria pelo mesmo deserto, durante os mesmos quarenta anos, um rebanho de seiscentas mil cabeças de dura cerviz, e o conduziria contando, amparando e buscando os desgarrados, e que nenhuma sala do Egito o teria preparado para tanto. O palácio ensina a vencer. O rebanho ensina a não perder. São ciências opostas, e a segunda é a de Deus.

Enquanto isso — porque toda peça de esconderijo tem o seu enquanto isso, e o desta peça reina — o Egito fazia a sua parte do desenho sem consultar-me. O velho rei morreu. Morreu do modo que o filho lhe preparara: sabendo que amara errado, com a retratação assinada nos arquivos e o abraço do desfile transformado em constrangimento póstumo. E o herdeiro herdou, enfim, e cingiu a coroa que uma vez, quarenta anos antes, vira na cabeça errada — e reinou. Não te contarei o reinado; os reinados dos ocos são todos iguais, administram-se bem e não deixam senão obras e medo. Conto-te o que os seus registros não registram: que ele procurou. Anos, patrulhas, informantes nas caravanas, prêmios discretos — o rei que guardava todos os arquivos do reino varreu-os atrás de um homem, e não o achou, e não podia achá-lo, e quero que saibas exatamente por quê, porque é a minha assinatura nesta peça: eu o escondera fora de todos os índices. Um príncipe procura-se nas cortes, um general nos exércitos, um sábio nas academias; quem procuraria o adotivo de Faraó contando ovelhas de um sogro na retaguarda do deserto? O irmão possuía todos os registros, e eu possuía a única coisa que os registros não alcançam: a inverossimilhança. Aprende, sétimo, e leva contigo quando desceres: o esconderijo perfeito não é onde não se vê; é onde não se acreditaria.

E então ele morreu também. Os autos dos homens dão-lhe uma linha — naqueles muitos dias morreu o rei do Egito — e eu lhe darei três, que é mais do que mereceu e menos do que me pede o gosto pela simetria. Morreu sem o troféu: o rival vivo, em lugar nenhum dos seus mapas. Morreu deixando a coroa a um filho que herdou o ódio sem a memória — guarda esse filho, sétimo: é o Faraó da peça que não escreverei, o que endurecerá o coração diante de um velho de oitenta anos sem saber que a querela vinha do berço do próprio pai. E morreu, sobretudo, do modo mais justo que o meu ofício conhece: o homem que passara a vida anotando virou verbete. Uma linha nos autos. Quem viveu para os arquivos, nos arquivos coube inteiro.

Com a sua morte, algo se destravou embaixo — os autos o dizem com os quatro verbos mais vagarosos e mais tremendos de todo o cânon: e Deus ouviu o gemido, e Deus se lembrou da aliança, e Deus viu os filhos de Israel, e Deus os conheceu. Quatro verbos, sétimo, subindo como sobe a água num poço que se julgava seco. Não os glosarei; há coisas diante das quais até as margens se calam. Digo apenas o que vi do meu posto: o gemido do tijolo atravessou o teto do mundo, e no alto alguém consultou uma promessa feita a um homem adormecido entre animais partidos, quatrocentos anos antes, sob um fogareiro que fumegava — a minha investidura, lembras-te — e achou que os prazos estavam cumpridos. O meu mandato começara com aquele sono; senti, na noite dos quatro verbos, que terminaria em breve, e que terminaria em fogo limpo, sem fumaça, de um fogo que não é da minha repartição.

O resto é a última manhã, e nela me demoro só o bastante para fechar o inventário. Ele tinha oitenta anos. Levava o rebanho pelos fundos do deserto — os autos dizem assim, além do deserto, e eu sublinho: um homem que passou quarenta anos indo sempre um pouco além é um homem que procura sem saber que procura. E uma ovelha desgarrou. Perguntar-me-ás se a desgarrei eu; é a pergunta desta peça, como a mão desviada foi a da primeira, e vou responder-te de uma vez, porque é a minha penúltima lauda e os arquivistas de saída podem certas larguezas: quarenta anos ensinei aquele homem, por ofício de ovelhas, a ir atrás do que se perde. Na última manhã, algo se perdeu na direção exata da montanha. Se foi manha minha ou se o mundo, a essa altura, já trabalhava sozinho no desenho — deixa no ar. Eu deixei. As melhores obras de um oculto são as que ele mesmo já não sabe se fez.

Ele subiu atrás da ovelha. A montanha chamava-se Horebe — a Seca, o nome mais pobre de toda a geografia, e repara na preferência do Alto pelos lugares de nome pobre. E no meio da subida, num desvio de pedra, havia um arbusto igual a todos os arbustos, e no arbusto uma luz que eu conhecia de quatrocentos anos antes, mas agora sem fumaça nenhuma.

Aqui termina a peça, sétimo, na borda exata. O que arde adiante não cabe em margem de arquivista: é o meu relatório final, e um relatório final escreve-se de pé.

— S.

(Segue, lacrada, a Peça nº 5: A Sarça, ou O Relatório Final do Primeiro Mandato de Séter.)