Peça nº 3 — Do Feitor Morto e da Fuga, ou O Irmão

Anotação de Séter, o Oculto, à margem dos autos. Classificação: selada até a véspera do sétimo.

Antes que leias, sétimo, uma advertência de arquivista: esta é a peça mais limpa de todo o dossiê egípcio, e limpa aqui não é elogio. Nas peças anteriores encontraste as minhas dobras, a mão desviada, o oráculo aproveitado, o deserto sugerido a quem já pensava em desertos. Nesta, procurarás a minha assinatura e não a acharás, e não porque eu a tenha selado: porque não assinei. Tudo o que nesta peça apodrece, apodrece por mão de homem. Guarda essa constatação até o fim; ela é o lacre verdadeiro do documento.

Dez anos separam o desfile do triunfo e o dia do feitor. Os autos dos homens saltam esses dez anos como se fossem corredor vazio; eu os arquivo como se arquiva uma fermentação. Porque foi nesse corredor que o herdeiro fez a sua obra, e a obra dele merece o respeito técnico que se deve a todo trabalho bem executado, ainda quando executado por um coração oco: ele não conspirou. Anota, sétimo, e sublinha, porque aqui está a inteligência do homem: conspirar é expor-se, e ele aprendera na infância — na tarde da coroa, medindo distâncias — que quem se expõe entrega ao rival o que o rival não tem por si. Ele não conspirou; ele administrou. Fez-se indispensável nos despachos enquanto o pai envelhecia; assumiu as chancelarias que ninguém disputa porque não dão glória, os tributos, os registros, as guarnições do interior — e quem guarda os registros de um reino, sétimo, guarda as gargantas dele. O general vitorioso ficou com as canções; o herdeiro ficou com os arquivos. Eu, que sou arquivista, reconheço o método com o desconforto de quem se vê imitado por um inimigo: ele compreendeu que o poder não mora onde se aclama, mora onde se anota.

E enquanto o irmão anotava, o meu — digo mal: o formando, o vaso, aquele de quem esta série de peças trata — atravessava a década com a inquietação particular dos homens que venceram cedo demais. As vitórias precoces são um problema de armazenagem: não cabem no resto da vida. Ele tinha as canções, o casamento cuxita, o assento nos conselhos onde a sua palavra rara pesava — e tinha, crescendo por baixo de tudo isso como cresce a água por baixo de um piso, a pergunta que eu passara quarenta anos administrando: quem sou. Perguntarás como a pergunta sobreviveu ao meu ofício, se escondi dele a origem, o povo, o nome. Respondo com a única derrota que confesso neste dossiê, e confesso-a com uma espécie de reverência: escondi tudo, menos o leite. A ama que o amamentou era a mãe, paga pelo tesouro do Egito — arranjo meu, e dos meus melhores —, e o leite tem memória que os arquivos não alcançam. Ela lhe cantou, nos anos em que ninguém vigia o que se canta a uma criança, as canções do povo do tijolo. Ele as esqueceu, como se esquecem as canções de ama. Mas esquecer, sétimo — e eis uma doutrina que te servirá nos séculos — esquecer não é apagar: é arquivar sem índice. Tudo o que aquele homem arquivou sem índice veio à consulta no dia em que saiu a ver os seus irmãos.

Os autos dizem assim, com essa simplicidade terrível: saiu a seus irmãos e viu as suas cargas. Quarenta anos, e saiu. Não perguntes quem lhe disse que eram seus irmãos; o leite lho dissera, e a década de inquietação fizera o resto. E viu um egípcio ferindo um hebreu, um feitor, um funcionário do tijolo, um homem pequeno exercendo sobre carne alheia a única grandeza que o sistema lhe emprestava. Os autos registram então o gesto que os doutores dos homens glosarão por dois mil anos: olhou para um lado e para outro. Dirão que procurava testemunhas, e a glosa é indigna do homem. Eu estava lá, sétimo; eu vi para onde ele olhou. Procurava outro homem — procurava, nos dois horizontes, alguém a quem aquilo coubesse, um juiz, um soldado, um deus local, qualquer instância que o dispensasse de ser ele a instância. E viu que não havia homem. Anota a expressão, que é dos autos e é exata: viu que não havia homem. Toda vocação começa nesse censo vazio. O profeta não é o que se apresenta; é o que olha para os dois lados, não encontra ninguém, e não consegue ir embora.

Feriu o egípcio e o matou. Não te demores no golpe; demora-te no que veio depois, porque no golpe ele foi general e no depois foi menino: escondeu o morto na areia. Na areia, sétimo. Eu, que o formei em esconderijos — que o escondi num cesto, num rio, num palácio, num deserto —, assisti ao meu aprendiz executar o ofício da minha vida com a pressa de um amador, e se os do meu estado pudessem gemer, aquele teria sido o meu gemido de mestre: a areia não guarda, a areia empresta. O vento é um arquivista sem selo: publica tudo o que lhe confiam. Mas não foi o vento que o traiu, e aqui chegamos ao centro da peça, à sua câmara mais fria.

No dia seguinte ele voltou — voltam sempre, os que descobriram um povo; a descoberta é um vício — e encontrou dois hebreus brigando entre si. Dois dos seus. E ao que fazia a injustiça disse a palavra que lhe subia pela primeira vez à boca, a palavra-embrião de toda a Lei que um dia carregaria da montanha: por que feres o teu próximo? E o homem — o ferido de ontem era outro, mas eram todos o mesmo homem, o tijolo faz isso, iguala os que esmaga — o homem respondeu com a frase que eu arquivei sob dupla chave, porque nela está o resumo antecipado de quarenta anos de deserto e de quatrocentos de história: quem te pôs por príncipe e juiz sobre nós? Pensas matar-me como mataste o egípcio?

Mede a frase comigo, sétimo, cláusula por cláusula. Primeira: o segredo vazara — e vazara não pelos espiões do herdeiro, não pelas patrulhas, não pelo vento da areia; vazara pelo salvo. O homem por quem ele matara contara. Segunda, e pior: quem te pôs por príncipe e juiz, a pergunta que o povo do tijolo fará, com variações de sotaque, a todo aquele que a brasa tocar, do primeiro ao último; a pergunta que Amós ouvirá em Betel e o teu profeta ouvirá no Jordão; a recusa da criatura em ser salva por mão que ela não elegeu. Ele proverá comida a esse povo, e o povo perguntará pelos temperos do Egito; abrirá o mar, e o povo perguntará se faltavam sepulturas. Tudo isso já está nesta frase, dita junto a uma parede de tijolo por um escravo anônimo a um príncipe que acabara de perder os dois reinos de uma vez, porque um príncipe hebreu era abominação para o Egito, e um egípcio justiceiro era suspeita para os hebreus, e naquele instante ele soube o que eu sabia desde o cesto: que o formei para não caber em parte alguma. Os que não cabem são os únicos que atravessam. Mas o preço de atravessar é não caber, e o preço cobra-se adiantado.

O medo veio então, os autos o registram sem pudor: temeu, e disse, certamente isto se soube. E soube-se, sim; mas repara, sétimo, no caminho que a notícia fez, porque os autos dizem apenas que Faraó ouviu, e entre o pátio do tijolo e o ouvido do trono há uma distância que notícia nenhuma percorre sozinha. Quem a carregou tinha nome, cargo e dez anos de paciência. O herdeiro recebeu o caso como um ourives recebe a pedra que esperou a vida inteira: sabendo exatamente o engaste. Porque um homicídio, entende, não servia. Príncipes matam; o Egito absolvia nos seus grandes as violências que puniria nos pequenos, e um feitor a menos não pesava nos livros de ninguém. Se o herdeiro levasse ao pai um homicídio, o pai daria de ombros, e o abraço do desfile continuaria valendo. Era preciso que o crime mudasse de espécie. E o herdeiro, que guardava os registros e conhecia as gargantas do reino, fez a única pergunta que transformava tudo: não perguntou quem ele matou; perguntou por quem ele matou. Um oficial do Egito morto por um príncipe do Egito em defesa de um escravo hebreu, isso já não era sangue, era bandeira. Isso declarava, melhor que qualquer confissão, aquilo que o teste da coroa insinuara quarenta anos antes e o riso da corte abafara: que dentro do palácio crescera, alimentado pelo tesouro, educado pelos magos, coberto pelas canções do exército, um homem cujo coração pertencia ao inimigo doméstico. O herdeiro não acusou um assassino, sétimo; denunciou um estrangeiro. E contra o estrangeiro interno não há absolvição possível, porque o seu crime não é o ato: é a existência.

E aqui, a jóia negra da peça, o lance que me obriga, a mim, que não estimo homem nenhum daquela casa, a inclinar-me diante do desenho: ele levou o caso ao pai. Não o resolveu nas suas chancelarias, ele que podia; não mandou lâminas discretas, ele que as tinha. Levou ao velho rei a prova montada, o crime já traduzido em traição, e obrigou o pai a sentenciar. Compreendes a vitória, sétimo? Na tarde da coroa, o menino descobrira que o amor do pai era território inalcançável. Pois eis a invasão consumada: fazer com que o próprio amor assinasse. Faraó procurou matar Moisés, dizem os autos — o mesmo Faraó que descera os degraus que um deus não desce para abraça-lo diante das margens cheias. O herdeiro não quis a morte do rival; quis que o pai a quisesse. Há ódios que se satisfazem com sangue; o dele era mais fino: alimentava-se de retratações. Que o velho morresse sabendo que amara errado — esse era o troféu, e o feitor morto foi apenas, como anotei no fecho da peça anterior, o carimbo.

Perguntarás — todos os sete perguntaram ao chegar a esta lauda, e vejo pela pressão da tua leitura que perguntas também — se houve sussurro nisto. Se alguma voz de baixo trabalhou aqueles corredores, envenenou aquela paciência, afiou aquela pergunta de ourives. Respondo com o inventário mais curto de todo o Arquivo: não. Não havia, naquele tempo, promotor algum rondando aquela casa; o de baixo ainda não reparara no menino do cesto, e não reparara em ninguém daquela linhagem — os seus autos daquele século ocupavam-se de outras praças. Tudo o que leste nesta peça é obra de homem: a paciência foi humana, o engaste foi humano, a invasão do amor do pai foi humana. Anota isto com tinta que não desbote, sétimo, porque virá o século — eu guardo os que virão — em que ouvirás o sussurrador reivindicar quedas, assinar catástrofes, inflar os seus autos com obras que não encomendou; e quando o ouvires, volta a esta peça e lembra: o homem não precisa de ajuda para tanto. É a doutrina mais antiga e menos estimada do meu arquivo, e deixo-a aqui no seu lugar de honra: o oco não carece de tentador; basta-lhe a ocasião.

Do resto, os autos são breves e eu serei mais: ele fugiu. Fugiu da face de Faraó, dizem — mas tu já sabes ler melhor: a face de Faraó era velha e amara; fugiu da mão que movera a face, fugiu do irmão. Saiu sem escolta o homem que atravessara o deserto das serpentes com um exército; saiu sem nome o homem que tinha dois e já não podia usar nenhum. Levou — faço o inventário de saída, porque um arquivista fecha tudo com inventários — nada que se confisca: as letras na memória, a guerra nos ossos, o protocolo das cortes no espinhaço, a pergunta do escravo cravada onde eu um dia soubera cravar perguntas. A formação não se apreende na alfândega; era toda a minha aposta, e atravessou a fronteira intacta dentro de um fugitivo. E quando, semanas depois, ele se sentou junto a um poço na terra de Midiã — os fugitivos sentam-se junto aos poços, sétimo, porque o poço é o único arquivo do deserto: cedo ou tarde, tudo o que vive vem consultá-lo —, quando ele se sentou naquele poço com quarenta anos e nenhum reino, começou sem o saber o segundo esconderijo, o mais longo, o mais fundo, aquele em que eu escondi um príncipe dentro de um pastor como antes escondera um hebreu dentro de um príncipe. Mas isso é a peça seguinte, e o sol dela ainda não subiu nestes autos.

Sela comigo: o Egito forjou a lâmina; o irmão, sem sabê-lo, acaba de embainhá-la no deserto — e o deserto, sétimo, é a bainha que afia.

— S.