Peça nº 2 — Da Campanha Etíope, ou De Como o Egito Forjou a Lâmina
Anotação de Séter, o Oculto, à margem dos autos. Classificação: selada até a véspera do sétimo.
Prossegues, sétimo. Reconheço-te pela pressa: os que vão descer leem depressa, como se a aurora pudesse atrasar-se por culpa de um arquivo. Não pode. Lê no teu passo; a noite que eu guardo durou mais que a tua impaciência.
Esta peça trata de uma guerra, e devo confessar de saída o que um arquivista confessa raramente: guerras são o material mais fácil do meu ofício. O homem em paz vigia; o homem em guerra só enxerga o inimigo, e quem só enxerga o inimigo não vê a mão que o move nem a mão que o poupa. Trabalhei em muitas guerras. Em nenhuma trabalhei tão pouco e colhi tanto quanto nesta.
Os fatos, primeiro, como constariam num auto qualquer: no ano tal do rei tal — os anos dos reis não me interessam; meço o tempo por gestações —, o reino de Cuxe subiu o rio. Digo mal: desceu sobre o Egito subindo o rio, que é o modo como aquele país entende todas as suas desgraças, de costas para a nascente. As guarnições do sul caíram como caem as coisas que apodreceram por dentro muito antes do golpe: de uma vez, com alívio. As cidades ardiam na ordem em que o rio as oferecia. E o Egito, que se julgava eterno porque confundia tamanho com destino, descobriu numa única estação que os deuses de granito não marcham.
Reuniu-se então o conselho, e aqui começa o meu material. Porque os magos e os sacerdotes — os mesmos, anota, os mesmos que uma década antes haviam lido usurpação no gesto de um menino e proposto o teste do ouro e da brasa — viram na guerra o que os homens de conselho sempre veem nas guerras: uma oportunidade administrativa. Consultaram os oráculos com aquela piedade meticulosa de quem já sabe a resposta que deseja, e a resposta que desejavam veio: que se desse o comando ao filho adotivo, ao hebreu do palácio, ao jovem que a corte amava demais e o herdeiro de menos. Se vencesse, o Egito ganhava uma guerra. Se morresse — e as campanhas do sul comem generais como o rio come margens —, resolvia-se com funerais de honra um problema que nenhum tribunal ousara resolver com julgamento.
Tu me perguntas, sétimo — perguntas porque todos os sete perguntaram, cada um na sua peça, e a pergunta é sempre a mesma com barbas diferentes —: a resposta do oráculo era minha? E eu te respondo com o inventário do que não precisei fazer. Não precisei inclinar o oráculo: a malícia dos sacerdotes o inclinava. Não precisei sugerir o nome: o ciúme do herdeiro o sugeria, sonhando o rival devorado pela distância. Não precisei sequer abrir a porta: o medo do rei a escancarou. Anota esta doutrina, que é das minhas mais antigas: o Oculto não contrata; o Oculto aproveita os contratados alheios. Os meus melhores funcionários nunca souberam para quem trabalhavam, e os melhores entre os melhores juravam trabalhar contra mim.
Deram-lhe, pois, o exército. E aqui devo demorar-me no que os autos oficiais despacham numa linha, porque nesta linha está a forja inteira. O rapaz — chamo-o rapaz; tinha a idade em que os homens confundem coragem com pressa, e ele não confundia, e isso já era assinatura — recusou o caminho do rio. Todos os generais do Egito subiam pelo rio, porque o rio era a estrada, o mapa, a teologia; e todos os emboscadores de Cuxe sabiam disso, e esperavam nas gargantas com a paciência de quem espera o previsível. Ele escolheu o deserto. Escolheu, digo mal: escolheu o pior deserto, o que as cartas marcavam com o silêncio especial dos lugares de onde não se volta, a região das serpentes, onde exército nenhum passava porque a terra mesma mordia.
E passou. Os autos gregos, séculos depois, contarão a minúcia dos cestos de vime e das aves íbis soltas adiante das colunas, devorando as serpentes como a manhã devora o orvalho — e a minúcia é verdadeira, mas anota o que ela esconde: não foi a ave que venceu a serpente; foi o pensamento lateral que venceu o pensamento reto. O menino de quem tudo se escondeu aprendeu, sem mestre visível, a arte de quem o escondera: nunca estar onde se olha, nunca vir por onde se espera, fazer da própria impossibilidade do caminho a escolta. Cuxe vigiava o rio e recebeu o deserto. Assisti àquela marcha, sétimo, com um sentimento que não recomendo a nenhum ser do nosso estado, porque se parece demais com o orgulho dos pais: o vaso que eu formara pensava com as minhas dobras. Não lhe ensinei nada. Esconder é ensinar sem aula; quem cresce cercado de véus aprende a tecê-los.
Do cerco direi pouco, porque os cercos se parecem todos: a cidade real de Cuxe fechada sobre si, entre os braços do rio, inexpugnável segundo todos os engenheiros — e os engenheiros tinham razão, e é por isso que a cidade não caiu por engenharia. Caiu por uma janela. Havia nas muralhas, entre os que espiavam o sitiante, a filha do rei; e a filha do rei viu, tarde após tarde, o general que não gritava. Anota isto, que parece ornamento e é eixo: os soldados daquela campanha contavam, e os autos gregos preservaram, que o comandante falava pouco — e nenhum deles sabia que o pouco não era estilo, era ferida, era a boca que a brasa pesou quando ele tinha três anos e uma bandeja diante de si. Mas eis o que a ferida operou: um exército desconfia do general eloquente, porque a eloquência é o uniforme dos que nunca sangraram; e obedece cegamente ao de poucas palavras, porque cada palavra rara pesa como ordem de pedra. O defeito comandava melhor que o dom. Guarda esta inversão; verás os teus seis irmãos redescobri-la, século após século, no corpo de cada profeta: a rachadura é o lugar por onde a autoridade entra.
A princesa mandou emissários. Ofereceu as portas; pediu o casamento. E ele aceitou — e a cidade se abriu sem que uma pedra da muralha se movesse, provando o teorema que nenhuma escola de guerra ensina porque nenhuma escola de guerra o suporta: o amor é a única porta que não se arromba por fora e se escancara por dentro. Tu lerás, no cânon que os homens guardam, um versículo solto e estranho, décadas adiante desta peça: a irmã e o irmão do profeta murmurando contra ele por causa da mulher cuxita. Os doutores dos homens tropeçarão nesse versículo por dois mil anos, perguntando de onde veio aquela mulher que o texto não apresenta. Veio desta peça, sétimo. Veio de uma muralha e de uma tarde. O cânon deixa no ar; o Arquivo explica depois; entre o ar e o depois, fica o meu ofício inteiro.
E então, a vitória — e com a vitória, o veneno dela, que é o verdadeiro assunto desta peça, porque tudo o mais foi forja e isto foi têmpera. Ele voltou. Voltou general, voltou vencedor, voltou com o sul pacificado e o exército cantando aquele tipo de canção que os exércitos só compõem para os comandantes que lhes pouparam a vida. O Egito encheu as margens para vê-lo passar. O rei — velho, e nos velhos o afeto e o descuido já nem têm dois rostos, têm um só — desceu os degraus que um deus não desce e o abraçou diante da corte inteira.
E na corte inteira havia um homem que media distâncias. Mediu aquela. O herdeiro que sonhara o rival devorado pelas serpentes via-o voltar coberto pela glória de tê-las atravessado; o que apostara na distância recebia de volta a proximidade multiplicada; e — aqui a lâmina da têmpera, anota com a mão firme — o reino que ele herdaria fora salvo pelo homem que ele odiava, de modo que cada palmo do seu futuro trono era, agora, um palmo devido. Não há dívida que um coração oco suporte pior do que a gratidão. No dia da coroa, o menino de nove anos descobrira que o amor do pai era território inalcançável; no dia do triunfo, o homem descobriu que o próprio reino o era. A perseguição que virá — e virá, e é a peça seguinte — não nascerá do feitor morto, sétimo; o feitor morto será apenas o carimbo. Nascerá deste desfile.
Fecho a peça com o inventário, porque um arquivista fecha tudo com inventários. Eis o que o Egito, até esta data, depositou voluntariamente na sua própria lâmina: as letras, para que um dia escrevesse a Lei; o protocolo das cortes, para que um dia atravessasse a de Faraó sem tremer diante de um trono que conhecia por dentro; o comando, para que um dia conduzisse pelo deserto um povo mais indócil que qualquer exército; a arte dos magos, para que um dia a vencesse sem espanto, como se vence o mestre envelhecido; e agora a guerra contra um reino de rio — anota, sétimo, anota em tinta dobrada: ele aprendeu a sitiar um reino que confia num rio. Quando vires, nas peças por vir, as águas daquele mesmo rio tornarem-se sangue, e as pragas apertarem o Egito uma a uma como um cerco aperta uma cidade, lembra-te de que o cerco foi ensaiado aqui, e de que foi o sitiado quem pagou o ensaio. O Egito forjou a lâmina peça por peça, poliu-a, banhou-a, provou-lhe o fio na própria pedra — e sorriu na entrega, porque essa é a natureza dos impérios: armam sempre a mão que os abaterá, convencidos de que estão apenas usando-a.
Se me perguntas onde eu estava em tudo isto — e já não perguntas, sétimo, já vais aprendendo —, estava onde estou nestas linhas: na margem. A margem não faz o rio; faz o rio ir.
— S.