Peça nº 1 — O Ouro e a Brasa

Anotação de Séter, o Oculto, à margem dos autos. Classificação: selada até a véspera do sétimo.

Tu que lês isto, lês porque a tua vez chegou. Não perguntes como sei que lês: guardar é saber quem abre.

Os teus seis irmãos deixaram relatórios. Eu deixo margens. Um relatório afirma; uma margem pergunta. Aprenderás, descendo, que a diferença entre nós dois ofícios é toda a diferença que há: eles acenderam, eu cobri. Eles foram lâmpadas; eu fui a mão em concha ao redor da lâmpada, que a chama não vê e chama de escuridão.

Começo pela peça mais antiga, que nenhum dos seis conheceu inteira. Antes do Candelabro, antes do primeiro mandato, antes que a ordem tivesse nome, a brasa já havia tocado um homem. Digo mal: um menino. Digo mal ainda: tocou-o, ou foi tocada? Guarda a pergunta. É a única herança que te deixo sem lacre.

Havia um palácio à beira de um rio que os homens adoravam, e no palácio dois meninos. Do primeiro, tudo se sabia: o nome desde antes do parto, o trono desde antes do nome, o dia da coroação calculado por astrônomos que erravam as estrelas mas nunca erravam a lisonja. Criança de quem nada se escondeu. Cresceu diante de espelhos, e os espelhos lhe devolviam um deus, porque naquela terra o rei não representava o céu: era o céu, com fome, com medo e com irmão.

Do segundo menino, tudo se escondia. A mãe o escondera três meses num cesto de junco; depois o escondera no rio, que é o modo mais ousado de esconder, à vista; depois a filha do rei o escondera no próprio palácio, que é o modo mais ousado de todos. E eu, mas quem sou eu para dizer eu nesta peça? anota apenas: alguém escondeu o esconderijo dentro do inimigo, e o inimigo pagou a ama de leite, e a ama era a mãe. Explico? Não explico. Naquela altura, ninguém explicava. As explicações são o luxo dos séculos seguintes; no meu século trabalha-se no escuro, com as mãos.

O menino escondido cresceu voraz. As artes o achavam fácil; a guerra, cedo demais, o acharia natural; as mulheres da corte diziam que ele escutava como quem devora. O menino exposto cresceu exato. Sabia protocolos, sabia genealogias, sabia — e esta era a sua única sabedoria verdadeira — medir a distância entre si e qualquer outro na sala. Foi ele o primeiro a medir a distância errada.

Aconteceu num dia de audiências. O rei — por afeto ou por descuido, nos reis as duas coisas têm o mesmo rosto — tomou o menino escondido no colo. E o menino, que devorava tudo, estendeu as mãos ao que ardia mais alto na sala: a coroa. Tirou-a da cabeça do deus e a pôs na sua.

Riu a corte, porque a corte ri primeiro e entende depois. Não riu o herdeiro. Tinha nove anos e mediu a distância: viu que ela era nenhuma. E o que os magos disseram em seguida — presságio, usurpação, a serpente no berço — já estava nos olhos do menino exposto antes de estar na boca dos velhos. Anota isto, sétimo: os magos falaram por ele. Toda a perseguição que virá, quarenta anos dela, nasce neste instante em que um menino de nove anos descobre que o amor do pai é um território bem difícil de alcançar.

Propôs-se então o teste. Ouro numa bandeja, fogo noutra. Se a criança agarrasse o ouro, sabia o que fazia, e criança que sabe o que faz com coroas não chega a homem. Se agarrasse o fogo, era criança apenas, e o riso da corte ficava sendo a verdade oficial.

Trouxeram a brasa da cozinha. Assim consta. Assim deve constar.

Mas tu, que já serviste ao Candelabro e conheces a Gachélet, a única, a do altar, a que os teus irmãos puseram em mãos, lábios, olhos, coração e ossos de homens escolhidos, tu me perguntarás o que qualquer arquivista teme: de que altar veio a brasa daquela bandeja? Respondo como respondo tudo: a cozinha ficava a quarenta passos da sala. A brasa chegou fria demais para o pouco caminho, e ardeu demais para a pouca brasa. Nos autos não há terceira testemunha. Nas margens, há esta margem.

A mão do menino foi ao ouro. Isto eu vi, isto afirmo, isto nenhum selo cobre: a mão foi ao ouro, porque a criança era voraz e o ouro ardia mais alto. E então a mão desviou. Os autos dizem: um anjo. A tradição dirá: Gabriel. Eu digo: quem esconde um libertador dentro de um palácio por dez anos aprende a desviar coisas menores que uma mão. Digo e não confirmo. Deixar no ar também é carregar.

A mão fechou-se sobre a brasa. O menino, queimado, fez o que fazem todos os meninos do mundo e nenhum deus do Egito jamais entendeu: levou a mão à boca.

E a boca ficou.

Ficou pesada, ficou lenta, ficou para sempre a boca de quem tocou o fogo do altar sem que houvesse ainda ordem, medida, tenaz ou serafim. Os teus irmãos, sétimo, passaram sete mandatos aperfeiçoando a arte de pôr a brasa num homem sem destruí-lo — dosagem, lugar, hora. Toda essa ciência nasceu de uma queimadura que ninguém dosou. Quando vires, nos relatórios de Anákh, o serafim voar com a tenaz até os lábios do aristocrata, lembra-te de que a tenaz foi inventada aqui, numa sala de audiências, no dia em que a brasa foi pegada com a mão nua de uma criança.

O herdeiro assistiu à queimadura e sorriu, porque leu ali a sua vitória: o rival ficara gago. Mediu a distância outra vez e a achou infinita. Errou outra vez. Não lhe disseram — a quem tudo se conta, nada se ensina — que há uma espécie de homem que o defeito não diminui: aprofunda. O menino de boca ferida falaria pouco pelos próximos oitenta anos. Depois falaria com Deus face a face, e ainda assim pediria um irmão que falasse por ele — e essa é a peça final deste dossiê, que arquivo adiante: o primeiro porta-voz, a primeira boca emprestada, o desenho de tudo o que vós fostes.

Quanto a mim, permaneci. É o meu mandato: permanecer onde os mandatos acabam. Cobri aquela sala como cubro estas linhas, com a mesma cinza. Se me perguntas — e sei que perguntas, todos os sete perguntaram — se a mão que desviou a mão era a minha, respondo com a única doutrina que o Oculto pode legar ao Radiante:

os segredos pertencem ao Senhor; as margens, a mim; a ti, sétimo, pertence a aurora — e a aurora não precisa saber quem apagou as lâmpadas da noite para que ela fosse a primeira luz.

— S.