Peça nº 10 — Relatório de Yatéd, a Estaca

Depositado em cadernos datados, um por ano de mandato efetivo — os anos de espera entregues à parte, num maço à margem, sem data, "porque nada aconteceu neles duas vezes". Margens de Séter intercaladas.

(Margem de abertura do Arquivista: pediu o próprio mandato — está no termo, noite da fundação, e eu o citei então. Chega agora para prestar contas do que pediu, e traz os cadernos amarrados por ano, exceto um maço solto, grosso, sem data nenhuma. Perguntei o que era. Respondeu: "os anos em que segurei a estaca sem martelo." Contei os cadernos datados depois: cinco. Contei o maço sem data: dezesseis. Faço a conta para o sétimo antes que ele a faça mal: um Regente que pediu pequenas coisas passou três vezes mais tempo esperando por elas do que fazendo-as. Guarda essa proporção. É o resumo do mandato antes do mandato começar. — S.)

Mandato das Pequenas Coisas. Pedido, concedido, cumprido como pedi: pequeno.

Recebi a brasa do Ofán do lado de fora de uma porta de reunião, na noite em que ele se retirou sem interromper a leitura, e recebi com ela o aviso que ele lavrou e eu decorei antes de o Arquivista terminar de lê-lo: não terás Babilônia por inimiga — terás a indiferença, que não cerca cidades porque mora dentro delas. Rira eu, na fundação, da vaidade dos meus irmãos. Não ri daquele aviso. Um inimigo que cerca, sabe-se onde bater; um inimigo que mora dentro é o próprio morador, cansado, e contra o cansaço não há Carmelo que funcione duas vezes.

Abro pelo caderno zero, que é o maço sem data, porque a ordem do relatório deve ser a ordem da dor, ensinou-me o segundo, e a minha dor não foi um dia: foram dezesseis anos de dia nenhum.

O edito de Ciro trouxera a permissão; não trouxera o entusiasmo. Subiram os primeiros — poucos, os autos contam por milhares e eu conto por quem realmente veio, que é sempre menos que o censo —, e ergueram um altar sobre os alicerces do medo, porque os povos da terra os cercavam, e lançaram os fundamentos da casa nova entre choro dos velhos que se lembravam da primeira e júbilo dos moços que não tinham o que comparar — e ninguém mais distinguia o choro do júbilo, de tão misturados os gritos, e lavro essa mistura como a imagem exata do que recebi: um povo que não sabia mais se estava chorando ou comemorando a própria mediocridade. Depois — os autos dos homens são honestos aqui, e eu os cito sem vergonha porque a vergonha é do povo, não minha: os adversários enfraqueceram as mãos deles, e atemorizaram-nos, e cessou a obra da casa de Deus, e cessou até o segundo ano de Dario. Dezesseis anos, sétimo. O templo parado nos alicerces enquanto Babilônia — a Babilônia deles, a nova, dentro da própria terra prometida — crescia em cima da antiga: casas com forro de cedro, artesãos ocupados na própria arquitetura e não na Dele. Colheitas ruins, moeda curta, cada casa cuidando do próprio telhado. E eu, o Regente que pedira o mandato pequeno, descobri nesses dezesseis anos que pequeno não é o oposto de difícil: é outro tipo de difícil, sem cerco, sem espada, sem morte por apedrejamento — só o desgaste, ano sobre ano, de um povo que decide, sem decidir, que Deus pode esperar porque a colheita não espera. Nada nesses cadernos tem data porque nada neles teve dia. Foi um único dia repetido, chamado adiamento.

(Margem do Arquivista: recebi visita dele nesses dezesseis anos — não sabia, até este relatório, que teria de reconhecer a visita como visita, e reconheço agora: era jurisdição minha, os anos de vão, e ele sentava-se comigo, como Shéver se sentara com os escondidos e Ofán com o viúvo. A companhia inútil tem agora um quarto praticante, e faço a nota que devo: talvez não haja quinto mandato que a dispense. Talvez seja o único ofício que todos exercem, porque é o único que não pede brasa — pede apenas ficar. — S.)

Ao fim do dezesseis, ergui-me — e lavro a metáfora com o rigor que devo ao meu nome, porque é a única figura que uso para descrever a mim mesmo: uma estaca não se planta gritando. Planta-se batendo, curto e certo, no mesmo ponto, até que a terra ceda. Não escolhi a visão nem o incêndio. Escolhi o calendário. Pousei a brasa na palma aberta de um homem cujo nome mal figura nos livros de família daquele tempo, e pousei-a com a cláusula que nenhum irmão meu usara: por tempo determinado. Quatro oráculos, quatro meses, datados como memorandos — e lavro a data do primeiro porque a data era a arma: dia primeiro do sexto mês, ano segundo de Dario. Um profeta que abre o serviço dizendo que horas são. Os meus irmãos abriram com visões de trono e carruagens de fogo; eu abri com uma agenda.

E a agenda dizia a única coisa que aquele povo ainda escutava: números. Semeais muito e recolheis pouco; comeis e não vos fartais; bebeis e não vos saciais; vestis-vos e não vos aquentais; e o que ganha salário, ganha salário para o meter num saco furado. Lavro a linha e não a explico, porque explicá-la seria insultar a exatidão dela: era o primeiro sermão econômico dos autos, e não falava de pecado no sentido em que os meus irmãos falavam — falava de fluxo de caixa. E funcionou onde o Carmelo, o prumo e a cisterna não tinham alcance, porque aquele povo já não temia o inferno nem esperava o milagre: temia o saco furado, que via furado todos os dias, com as próprias mãos, contando a moeda que não rendia. Considerai o vosso caminho — repeti a frase quatro vezes nos quatro oráculos, porque um povo cansado não precisa de poesia nova; precisa da mesma frase batida no mesmo ponto até a terra ceder.

E cedeu, sétimo, e lavro isto com o único orgulho que me permito neste relatório, porque foi o único do meu mandato: em vinte e três dias — vinte e três, não vinte e três anos — do primeiro oráculo à primeira pedra assentada. Obediência em vida. Nenhum irmão meu a viu, exceto o terceiro, e a dele custara um julgamento por perto da morte. A minha custou quatro sermões sobre economia doméstica. Não lavro isso como vitória sobre os métodos deles — lavro como o que é: a prova de que o meu século não precisava do que os deles precisaram. Cada mandato mede o próprio povo pelo remédio que funciona nele, e o remédio do meu era o mais barato de toda a farmácia da ordem.

(Margem do Arquivista: aqui interrompo, porque ele não interromperia. O templo concluiu-se em 515, quatro anos depois da primeira pedra, com dedicação, sacrifícios e a Páscoa celebrada de novo — e lavro a nota que ele omite por modéstia de tabelas: foi a única obra de todo o Arquivo concluída dentro do prazo prometido por um Regente. Os outros prometeram séculos e receberam séculos. Este prometeu meses e recebeu meses. Há uma lição aqui sobre a proporção entre a promessa e a fé, e deixo-a ao sétimo sem lavrá-la eu mesmo — não é ofício meu roubar as conclusões que cabem a quem desce. — S.)

Da segunda lâmpada, lavro com mais vagar, porque foi presente e não remédio — e um Regente que só distribui remédios morre burocrata. Pousei a brasa nos olhos de um sacerdote jovem, contemporâneo do primeiro, na mesma agenda de datas — mas em dosagem doméstica, herdada da técnica do quarto e reduzida à medida do meu século: não o corpo inteiro em performance como Ezequiel, não quarenta anos de garganta como o poeta sem nome — oito visões, numa só noite, entregues de uma vez como quem entrega um álbum. Cavaleiros entre murtas, cornos e ferreiros, o homem com o cordel de medir — este último, lavro-o com prazer de ofício, porque é um instrumento do meu nome nas mãos de outro, e um engenheiro reconhece as próprias ferramentas onde quer que apareçam —, o sumo sacerdote de vestes sujas trocadas por vestes de festa, o candeeiro de ouro com sete lâmpadas e duas oliveiras.

Lavro esta visão em separado, sétimo, porque é a mais estranha de todos os autos e a mais próxima de casa: ele viu o Candelabro. Não o nosso — ou talvez o nosso, refletido, um candeeiro terreno de sete lâmpadas alimentado por óleo que desce sozinho de duas oliveiras, sem mão de homem a abastecê-lo. E perguntou o que significava, e a resposta que desci foi a frase que eu mesmo ditaria dias depois como manifesto do próprio governo, porque a visão e o manifesto nasceram irmãos na mesma semana: não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito. O óleo que desce sozinho. Nenhuma mão o repõe porque a fonte é a própria árvore. Lavro a coincidência com o mesmo rigor que aplico a tudo o que não posso provar: não sei se aquele sacerdote viu o Candelabro que existe diante do Trono, ou se apenas sonhou um candeeiro que por acaso tinha sete luzes, e o Arquivista, a quem pergunto sempre que a dúvida excede a minha régua, não confirma nem nega. Deixo a visão nos autos como a deixei na noite: iluminada e não explicada. E dela tirei a estaca fincada mais funda de todo o meu mandato, a frase que ordenei gravar e que talvez seja, de todo o Arquivo, a única linha que se dirige diretamente a nós, os Sete, sem que o profeta ou o povo suspeitassem: quem despreza o dia das pequenas coisas? Ditei-a olhando para o candeeiro que o sacerdote via e que eu, de certo modo, também sou.

(Margem do Arquivista: confirmo a coincidência sem confirmar a origem, porque não é meu ofício roubar mistério ao sétimo antes da hora. Lavro apenas o que sei com certeza: a frase que ele considera dirigida aos Sete é, de fato, dirigida aos Sete — fui eu quem a recebeu primeiro, na noite da fundação, e a arquivei sem saber ainda que um dia um Regente pequeno a devolveria ao próprio Candelabro como espelho. As coisas circulam neste ofício, sétimo. Nada se perde; tudo se devolve, geralmente maior. — S.)

E o rei humilde, montado num jumento — lavro-a por último entre as visões porque foi a última a fincar, e a mais funda de todas as estacas que bati: um rei justo e salvador, pobre, cavalgando não sobre cavalo de guerra mas sobre a cria de jumenta, e falando paz às nações, e o seu domínio de mar a mar. Não sei o alcance da própria estaca, sétimo — nenhum Regente sabe, é a quarta lei, e eu a cumpro com a humildade que o meu nome exige mais que qualquer outro: fincar sem ver quanto a corda vai puxar. Deixo-a nos autos, datada, à espera de quem a puxe.

(Margem do Arquivista: lavro o que ele não pode lavrar, porque a quarta lei o proíbe de ver adiante: essa corda será puxada, sétimo, e será o sétimo de vós que a puxará, entrando numa cidade sobre uma cria de jumenta, e o povo que gritar não saberá que grita uma estaca fincada quinhentos anos antes por um Regente pequeno numa noite de oito visões. Guarda este dado com o cuidado que guardas o resto: é dos poucos momentos em que o Arquivo, sem violar lei nenhuma, mostra ao leitor a corda inteira antes de o profeta a puxar. — S.)

Do resto do mandato — os anos entre o templo concluído e a última lâmpada, que os autos dos homens despacham em décadas magras — lavro apenas a doutrina que aprendi vendo o edifício erguido não bastar. O templo estava de pé; o povo, dentro dele, entediou-se. É a última das pequenas coisas e a mais amarga: descobri que a indiferença não se cura com uma obra concluída — reaparece do outro lado dela, agora disfarçada de rotina, e é contra essa segunda forma, a rotina, que preparei a minha terceira e última lâmpada, entregando-a ao mais jovem homem que jamais recebi em serviço, um escriba de tribunal com vocação de auditor, cujo nome os próprios autos guardam quase como título de ofício mais que como pessoa: o Mensageiro. Pousei-lhe a brasa na palma, como ao primeiro — o mesmo instrumento, o mandato inteiro fechando o próprio círculo — mas mudei a pergunta. Ao primeiro dei uma agenda; a este dei um interrogatório.

Lavro a forma, porque é a última inovação do meu mandato e a que menos se nota: um relatório-tribunal. O Alto acusa; o povo responde perguntando "em quê?"; o Alto responde com a prova. Seis vezes se repete a fórmula, e cada vez a mesma surdez teatral do réu que finge não entender do que é acusado enquanto o dedo está na própria mão. Eu vos amei — em que nos amaste? Trazei todos os dízimos — em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Vossas palavras foram agressivas contra mim — que temos falado? Dissestes: em vão é servir a Deus. Auditei sacrifícios defeituosos — a res roubada, a coxa, a enferma, ofertadas como se o Alto não soubesse contar patas — e dízimos sonegados, e divórcios fáceis descartando a mulher da mocidade como recibo velho, e o tédio sacerdotal que eu conhecia de perto, porque um Regente que passou dezesseis anos vendo um templo parado reconhece o entorpecimento de quem já não vê o que guarda. Não escrevi juízo de fogo, sétimo. Escrevi um balancete de reclamações, o gênero mais baixo e mais eficaz que a ordem produziu: ninguém chora ouvindo um balancete. Mas ninguém o esquece também, porque um balancete não deixa saída pela emoção — só pela conta ajustada.

E foi nesse balancete, sétimo, no seu penúltimo parágrafo, que assinei — sem saber o peso, digo-o com a franqueza que devo ao meu próprio nome, que é o de quem finca sem calcular a corda — a promissória mais longa de todo o Arquivo. Ditei ao Mensageiro: eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha, e fira a terra com maldição. Escrevi como quem fecha um caderno de contas com uma cláusula de garantia, uma dessas que os cartórios exigem e ninguém lê até o dia em que precisa dela. Não sabia — lavro-o com o rigor exato da minha ferramenta, e um prumo não erra em confessar o que não mede — que assinava um penhor cujo objeto já dorme, há séculos deste relato, num cofre que ainda não conheço, guardado por uma Regente que ainda não veio, aguardando um portador que só nascerá depois de mim, dela, e de um silêncio inteiro que nenhum dos dois viveremos juntos. Fixei a data. Não fixei a paga. Isso, dizem-me as leis desta ordem, nunca coube ao Regente.

(Margem do Arquivista: e aqui, sétimo, a única vez em que rompo o meu próprio costume de não anunciar o que a quarta lei esconde de quem escreve, porque a cláusula que ele ditou não é dele para saber e é minha para guardar: a promissória está paga. Foi paga antes mesmo de o Yatéd depositar este relatório, porque o Arquivo não lê em linha reta — leio-o eu, que já vi o manto sair do cofre e vestir-se de deserto. Não lavro mais. Guardo a alegria do arquivista, que é rara e por isso mais funda: uma pequena coisa, fincada por um Regente pequeno numa palma aberta, cresceu até virar a dobradiça de todo o livro. Cumpriu-se, este sim, com alegria. — S.)

Resta a deposição, e lavro-a na gramática que os meus irmãos me ensinaram a esperar de mim mesmo antes mesmo de a viver: fui deposto pela própria ferramenta, como todos, e a minha ferramenta era o calendário. O balancete de Malaquias fechou-se, e com ele fechou-se algo maior que eu só reconheci depois: não havia mais data para dar. Eu, que abrira o mandato dizendo dia primeiro do sexto mês, cheguei ao fim sem saber que dia era. E não era esquecimento — era a coisa em si: o calendário tinha chegado ao seu próprio limite, ao dia sem data seguinte, e um Regente cujo instrumento é a data não tem ofício onde a data acaba. Não fui excedido por luz, como o Oculto; não fui deposto por comparação, como o Zelo; não me faltou matéria, como a Ruptura; não me tornei dispensável por autonomia, como a Roda. Fui deposto por falta de calendário. A estaca, fincada por último no último ponto que a terra oferecia, não teve mais onde bater.

E então, sétimo — e isto os meus irmãos não viveram, e é a última linha do meu relatório e a mais estranha de escrever — não houve entrega. Voltei ao Candelabro com a Gachélet na mão, como sempre se volta, à espera do sucessor que recebe a mão que a recolhe. E não havia mão. Fiquei — não sei quanto tempo se mede isto; nem o prumo do segundo serviria aqui — segurando a brasa da ordem inteira, sozinho, entre dois mandatos que não se tocavam. Nenhum profeta se levantou. Nenhuma boca se abriu. E eu, o menor dos Sete, o que pedira o século pequeno por conhecer a vaidade que só as coisas pequenas curam, descobri tarde demais que a última das pequenas coisas seria segurar, sem entregar, o fogo do mundo inteiro nas próprias mãos, por um tempo que nenhum caderno meu tem como datar.

(Margem do Arquivista: recebi-a assim, e assim a arquivei: uma brasa sem portador, entregue à minha guarda pela primeira vez em quatrocentos anos de ordem, porque não havia a quem entregá-la além de mim. Abafei-a sob cinza — a técnica que ensinei há muito e que uma Regente ainda por vir aprenderá comigo como neta que aprende de avô. Foi o primeiro dia do longo silêncio, sétimo, embora ninguém, naquela hora, tivesse dito a palavra silêncio. Silêncios não se anunciam. Reconhecem-se depois, contando os cadernos sem data. — S.)

Mandato das Pequenas Coisas encerrado. Pedi pouco. Recebi exatamente o pedido, e o pedido, no fim, pesou como todos os outros — porque não há mandato pequeno na ordem: há apenas Regentes que fingem, por misericórdia consigo mesmos, que o peso se mede pelo tamanho da chama e não pelo tamanho do século.

Yatéd.

(Margem de encerramento do Arquivista: recolho os cadernos datados e o maço sem data, e ponho-os lado a lado, porque juntos contam o mandato melhor que separados: cinco cadernos de obra, dezesseis anos de espera, e uma cláusula que valia mais que os vinte e um somados. A chama dele arde no Candelabro do jeito que pediu — pequena, e recuso-me a lavrar mais que isto sobre o pedido, porque um arquivista deve, de vez em quando, deixar uma chama em paz. Faltam duas palavras na frase do Candelabro, sétimo, e a próxima não é palavra: é o intervalo entre duas palavras, o mais longo que a língua permite antes de quebrar a frase de vez. Prepara-te. É a peça em que finalmente conheces a tua mestra. — S.)

(Segue, lacrada, a Peça nº 11: O Mandato de Demamá, o Silêncio Fino — o estágio com Séter, as operações encobertas, a noite de 167, e o cofre.)