Relatório de Ofán, a Roda
Depositado em forma de memorial descritivo, organizado por pranchas, com desenhos à margem que o Arquivista declara não saber transcrever. Margens de Séter intercaladas.
(Margem de abertura do Arquivista: veio acompanhado de rolos de desenho — plantas, cortes, elevações de coisas que não existem em pedra nenhuma: uma cidade portátil, um templo de palavras, um calendário com fundações. Não sei lavrar desenhos; lavro a descrição que ele fez de cada um, e aviso ao sétimo: onde os outros disseram "sinto", este diz "sustenta". Não é frieza. É a língua de quem passou um mandato inteiro impedindo desabamentos. — S.)
Mandato do Traslado. Memorial de obra executada em território inimigo, sob carga máxima, sem apoio de solo. Abro pela regra que regeu tudo: o que não se pode manter de pé, põe-se sobre rodas.
Prancha primeira: o estado da estrutura recebida. Recebi a brasa duas vezes, conforme a doutrina que o terceiro lavrou — telhas, disse ele, e aceito a figura com uma correção de ofício: telhas pressupõem casa, e casa era exatamente o que não havia. Em 593 recebi o empréstimo, junto ao rio Quebar, para os olhos de um sacerdote deportado; em 586 recebi a posse, sobre um campo de cacos. E lavro o diagnóstico que fiz na primeira vistoria, porque dele decorre o mandato inteiro: a fé dos meus antecessores era um edifício de três pilares — a terra, o templo, o trono. Terra prometida, casa de Deus, filho de Davi. Em 586 os três pilares ruíram na mesma estação, e toda a engenharia religiosa conhecida dizia que um deus sem terra, sem casa e sem rei é um deus morto — os vencedores o diziam nas procissões de Marduk, arrastando pelas ruas de Babilônia os vasos do nosso templo como troféus de um duelo que o nosso lado teria perdido. E o meu povo, nas margens dos canais, pendurava harpas nos salgueiros e fazia a pergunta de todas as engenharias falidas: como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? A pergunta era técnica, sétimo, ainda que a fizessem chorando: perguntavam se o Deus deles tinha fundação fora do próprio endereço. O terceiro demolira a casa para salvar o morador, conforme a chave que recebeu; a mim coube provar que o morador nunca precisara da casa. Projeto do mandato, em uma linha: transferir a carga inteira da fé de três pilares mortos para estruturas que nenhum exército alcança.
Prancha segunda: o traslado. Antes de mover o povo, era preciso mover a tese — e a tese era o Trono. Desenhei a viagem e executei-a diante de uma testemunha escolhida, porque uma mudança de sede sem testemunha é uma fuga. Junto ao Quebar, no meio dos deportados da primeira leva, abri o céu para o sacerdote Ezequiel e passei com a sede inteira: as quatro faces, o fogo revolvendo-se, e embaixo — anota, sétimo, porque embaixo estava a mensagem — as rodas. Rodas cheias de olhos, roda dentro de roda, movendo-se sem virar-se, e sobre as rodas o firmamento, e sobre o firmamento a semelhança de um trono, e sobre o trono a glória. Os doutores dos homens gastarão séculos nos querubins; a mensagem estava no rolamento. Um trono sobre rodas é uma sentença de engenharia: a sede não é o solo. Deus não fugiu de Jerusalém nem foi arrastado de lá — mudou-se, por decisão própria, na direção dos deportados, e chegou a Babilônia antes das correntes deles. Era eu que chegava, com a sede às costas, e o sacerdote caiu sobre o rosto, e eu soube que a primeira viga do mandato estava lançada: um homem vira o Trono rodar, e viu que rodava para junto dos vencidos. O resto do mandato foi desdobrar essa única imagem em instituições.
(Margem do Arquivista: confirmo a data e o assombro. Acrescento o que o memorial não diz: os anos entre o Quebar e a queda foram os anos das duas telhas, e eu os vi por dentro — Shéver segurando a demolição de um lado do mundo, Ofán montando a mudança do outro, e nenhum dos dois vendo o trabalho do irmão, por força da quarta lei. Do meu posto entre os dois, lavro o que só o vão enxerga: a ordem nunca esteve tão coordenada como no seu pior século, e nenhum dos coordenados o sabia. Há uma assinatura do Alto nisso, sétimo, e é das que se leem só de longe. — S.)
Prancha terceira: o instrumento de campo. Ezequiel. Pousei-lhe a brasa nos olhos — dosagem plena, lavro a técnica e a razão: o meu público não podia ouvir. Um povo em choque de deportação não escuta oráculos; o ouvido é o primeiro sentido que o trauma fecha, e o último que reabre. Mas o olho, sétimo — o olho não fecha por dentro. Projetei, então, o primeiro profeta inteiramente visual da ordem: não uma boca com gestos, como foram todos, mas um corpo-diagrama, uma maquete viva das minhas pranchas. E dirigi-o — o Arquivista escreveu "coreógrafo" nos autos dele e aceito o título com a precisão que me é devida: coreógrafo é o que desenha o movimento que outro corpo executa. Deitei-o sobre o lado esquerdo trezentos e noventa dias, um dia por ano da culpa do norte, e quarenta sobre o direito, pela culpa do sul — um calendário de carne deitado à porta, para que os passantes contassem a própria história nos dias de um homem imóvel. Fiz-lhe pesar comida e água em balança de racionamento e cozê-la diante de todos, para que vissem o cardápio do cerco antes do cerco. Fiz-lhe raspar a cabeça a espada — a espada como navalha, sétimo, o instrumento da guerra rebaixado a barbearia — e dividir o cabelo em três: um terço ao fogo, um terço aos golpes, um terço ao vento, e uns poucos fios atados na orla da veste. A cidade inteira, em cabelo. Um terço arde, um terço tomba, um terço se dispersa, um resto se guarda. Nenhum oráculo falado do meu século disse tanto, e nenhum pôde ser desouvido, porque não havia o que desouvir: havia o que ver, e os olhos dos deportados iam ao meu homem todas as manhãs como se vai ao quadro de avisos.
E agora a linha de custo, que a série dos meus irmãos me obriga e o meu termo não me deixaria omitir. O Prumo pôs um casamento no mundo para doer; a Ruptura tirou um do mundo pelo mesmo motivo; a mim coube o terceiro degrau da mesma escada terrível, e lavro-o sem desenho, porque há cargas que não se desenham: a mulher de Ezequiel morreu — o desejo dos teus olhos, disse o decreto, e eu o transmiti na véspera, e o decreto seguia: não lamentarás, nem chorarás, nem te correrão as lágrimas; geme em silêncio; ata o turbante; calça as sandálias. De manhã ele falou ao povo; à tarde ela morreu; e à manhã seguinte ele estava à porta, de turbante atado, seco, fazendo conforme me foi ordenado — e o povo, que já sabia ler o meu homem como se lê um edital, perguntou o que aquilo anunciava. E ele disse: assim ficareis quando cair o santuário, o desejo dos vossos olhos — sem luto, porque há perdas maiores que a liturgia da perda. Funcionou, lavro-o na coluna do retorno: nenhum sinal do mandato ensinou mais fundo. E lavro na coluna do custo o que as tabelas do segundo me ensinaram a não esconder: usei a morte de uma mulher como edital, e o luto que proibi não era meu para proibir. O segundo pôs a culpa por unidade; meço-me por ela e o resultado é este parágrafo. A viúva não era viúva — o viúvo é que ficou; mas ela, como Gômer, não assinou termo nenhum, e nem sequer soube que era sinal. Que se lavre: a série dos que não assinaram tem três nomes agora, e temo que o Candelabro inteiro não baste para iluminar a coluna onde eles se lançam.
(Margem do Arquivista: lavro eu o quarto dado, que ele não porá: na noite da véspera, entre o decreto transmitido e a morte anunciada, Ofán não saiu de junto do sacerdote. A companhia inútil, sétimo — a modalidade do terceiro, exercida pelo quarto, sem que nenhum soubesse do outro. Começo a suspeitar que ela é a verdadeira instituição secreta da ordem: não consta de estatuto, não produz verso, e todos a exercem na pior noite dos seus homens. Arquivo a recorrência. As recorrências são o modo de o Alto assinar sem tinta. — S.)
Prancha quarta: as fundações portáteis. Enquanto o meu homem sinalizava, eu construía — e esta prancha é a que me valeu o mandato, porque as outras responderam à queda e esta respondeu ao século seguinte. Três obras, todas sem pedra.
A primeira: a casa de reunião. Se o templo era o ponto fixo e o ponto fixo ardera, projetei o contrário exato de um templo: um lugar que é lugar nenhum — dez homens e os rolos, e onde isso houver, ali é. Sem altar, porque sacrifício era função do endereço; com leitura, porque a Palavra é função de qualquer parte. Os deportados começaram nas casas, anciãos sentados diante do sacerdote — vieram alguns dos anciãos e se assentaram diante de mim, está nos autos do meu homem, e essa frase modesta é a certidão de fundação de uma instituição que atravessará todos os impérios seguintes, porque não oferece a nenhum deles nada que se possa queimar. Um templo queima-se; uma reunião remarca-se. Foi a minha resposta aos incendiários de todos os séculos: doravante a casa de Deus cabe em qualquer casa, e portanto em nenhuma se esgota.
A segunda: o santuário no tempo. Esta considero a peça-mestra do mandato e peço ao sétimo que a estude na planta e não na aparência. O problema: todo santuário de espaço é conquistável — tem muro, e muro se escala. A solução: mudar o santuário de dimensão. O sábado existia desde a fundação do mundo, mas era, para o meu povo, um costume entre costumes, guardado quando dava; eu o reergui como fortaleza — a cada sete dias, um recinto de horas que nenhum exército invade, porque não está em lugar algum: está no calendário, e calendário não se ocupa. O babilônio podia tomar a cidade, o campo, o corpo do meu povo seis dias por semana; ao sétimo, o mais pobre dos deportados entrava num palácio invisível e trancava por dentro uma porta que Nabucodonosor não achava. Anota a inversão, sétimo, que é o orgulho técnico do mandato: fiz da derrota o terreno — justamente porque perdemos todo o espaço, sobrou-nos todo o tempo; e murei o tempo. Os impérios envelhecem tentando derrubar o que não fica de pé em parte alguma.
A terceira: a estrutura da culpa, recalculada. Correu entre os deportados um provérbio de dente: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram — a culpa como herança, o castigo como sobrenome, e por baixo do provérbio a conclusão que apodrece povos: se pago pelo que não fiz, nada do que eu fizer importa. Mandei o meu homem demolir o provérbio com a carga máxima: a alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai. Redistribuí a carga da culpa de vigas geracionais para apoios individuais — cada homem sustentando o próprio peso e podendo, portanto, mudar o próprio destino: se o ímpio se converter, viverá; se o justo apostatar, cairá. Nenhuma das minhas obras foi mais atacada pelos doutores dos séculos, que lhe acharam contradições com os autos antigos; lavro a defesa de engenheiro: não contradisse — reforcei; uma estrutura em ruína pede outra distribuição de carga, e um povo esmagado por culpa alheia precisava saber que a porta da sua cela abria por dentro. E sobre esta fundação assentei a promessa que emparelha com a do terceiro, e as duas se leem juntas: ele anunciou a lei escrita no coração; eu detalhei a cirurgia — tirarei o coração de pedra e vos darei um coração de carne, e porei dentro de vós o meu Espírito. O terceiro perdoou-se numa promessa; eu lhe desenhei o transplante. As pranchas dos dois mandatos são do mesmo edifício.
E o vale. Não o lavro por extenso — está nos autos do meu homem melhor do que memorial algum o diria — mas registro a função na obra: quando a última esperança secou (os nossos ossos se secaram, e a nossa esperança pereceu), levei o sacerdote em espírito a um vale de ossos, secos em extremo, e fiz-lhe a pergunta de todas as vistorias — podem estes ossos reviver? — e ele deu a única resposta aprovada em concurso na história da ordem: Senhor, tu o sabes. Nem sim, que seria presunção; nem não, que seria laudo de morte; devolveu a pergunta ao dono da resposta. E profetizou aos ossos, e houve o ruído, osso a osso buscando o seu — o ruído, sétimo, os autos guardam o ruído: a esperança recomeça sempre por um barulho de encaixe — e nervos, e carne, e pele, e por fim o sopro dos quatro ventos, e o vale pôs-se em pé, exército grande sobremaneira. Era a resposta à pergunta dos salgueiros: canta-se em terra estranha, sim — profetiza-se até a osso, se o vento vier. Guardei a visão na prancha das fundações, e não na das promessas, pela razão que o sétimo entenderá na hora própria: um povo que viu os próprios ossos levantarem-se atravessa qualquer século sabendo o caminho de volta do pó.
Prancha quinta: a garganta sem nome. Chego à segunda aplicação e à minha ferida própria, e o memorial não a desviará.
Pela metade do mandato, a geração virou. Os que choravam nos salgueiros morreram; os filhos nasceram babilônios de endereço, prosperavam — cartas do terceiro os haviam mandado plantar hortas e edificar casas, e obedeceram bem demais —, e o perigo mudou de espécie: já não era o desespero, era o conforto. Um povo pode perder-se por afogamento ou por acomodação, e o segundo naufrágio não faz barulho. Para esta fase eu não precisava de um sinaleiro de catástrofe: precisava de um poeta de partida, uma voz que fizesse o impensável — dar saudade de um deserto. E encontrei-o entre os discípulos que guardavam os rolos do velho voluntário do Prumo, um homem embebido daquela escola ao ponto de as frases dele nascerem no mesmo metal — e pousei-lhe a brasa na garganta, nem na boca que declama nem no peito que sente: na passagem, no lugar por onde a voz é só voz. E então executei a decisão que os meus irmãos discutem desde antes de eu depor este memorial, e lavro-a com os fundamentos, para que se discuta com os autos à vista: ordenei que o nome dele fosse apagado. Dos rolos, das memórias, das margens. Os cânticos entrariam nos autos dos homens costurados ao rolo do velho Isaías, sem emenda visível, e o maior poeta que a língua do meu povo produziu não teria lápide, escola, aniversário nem sepulcro conhecido.
Os fundamentos, por ordem de peso. Primeiro, o estrutural: o mandato inteiro provava que a fé não depende de endereço; faltava provar que a Palavra não depende de assinatura — um consolo assinado consola menos, porque quem sofre pergunta quem és tu para prometer?, e a pergunta morre quando não há quem. Segundo, o de segurança: um poeta daquele porte, nomeado, viraria bandeira, e bandeira em terra ocupada vira alvo — o anonimato foi também blindagem, e lavro adiante o quanto. Terceiro, o que só confesso porque o segundo me legou a unidade da culpa: eu queria saber se era possível. Se uma voz humana aceitaria arder sem ser vista ardendo. Os Regentes somos eloquência sem boca; eu quis um homem que fosse boca sem nome — o nosso espelho invertido, o sacrifício simétrico ao nosso. E ele aceitou, sétimo. Não por quebra — por amor. Disse-me, no único diálogo que a aplicação labial da garganta permite (o consentimento, aprendi do Prumo, sobe de doutrina quando a aplicação sobe de custo): a erva seca, a flor cai, mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre — que me importa em qual das duas colunas me lanças? E dobrou a própria vaidade como quem dobra uma veste que não vai mais usar, e cantou.
E como cantou. Consolai, consolai o meu povo — a estreia, sétimo, depois de cem anos da cláusula do terceiro: o primeiro imperativo de consolo em um século, e saiu dobrado, porque uma vez não bastava para tanto jejum. Todo vale será exaltado. Eis o meu servo. A quem me comparareis? Eu sou o primeiro e eu sou o último, e fora de mim não há Deus — anota a promulgação, que é única nos autos dos homens: não o maior dos deuses, não o mais forte — não há outro; o monoteísmo saiu inteiro pela primeira vez, e saiu de uma garganta anônima em terra pagã, porque só quem perdeu tudo pode afirmar tudo: um deus territorial prova-se por vitórias, e nós não tínhamos nenhuma; restava o Deus total, que se prova por não haver mais nada. A teologia mais alta do cânon nasceu como resistência de porão. Orgulho-me da acústica.
E no meio dos cânticos, sem que eu os encomendasse — lavro a procedência com o rigor do memorial: estas pranchas não são minhas —, vieram os quatro poemas do Servo. Um servo que não grita nem faz ouvir a voz na rua; que não quebra a cana trincada nem apaga o pavio que fumega; desfigurado além dos homens; desprezado, e nós não fizemos caso; levado como cordeiro ao matadouro, sem abrir a boca; ferido pelas nossas transgressões, e pelas suas pisaduras fomos sarados; designado com os transgressores na morte, e verá a sua posteridade e prolongará os dias. Perguntei ao poeta quem era o servo. Respondeu-me que perguntava também. Perguntei ao Arquivista, que guarda os selos. Não abriu. Lavro então o que um engenheiro lavra diante de uma viga que sustenta mais do que o cálculo dela explica: há no meio dos meus autos uma prancha de um edifício que não projetei, com uma carga que nenhuma fundação minha suporta, e deixo-a no Arquivo intacta, orientada para diante, porque as plantas que excedem o século pertencem ao século que as cumprir.
(Margem do Arquivista: não abro o selo. Confirmo apenas, para o sétimo, o arrepio de ofício: um homem sem nome escreveu o retrato de alguém sem parecer — "não tinha aparência nem formosura" — e o retrato aguarda o retratado. O Arquivo tem corredores que eu mesmo percorro com a lamparina baixa. Este é o mais comprido. — S.)
E foi na noite mais alta dos cânticos que o de baixo veio, e lavro a quarta audição na ordem e com o desfecho, porque o desfecho abriu doutrina. Veio ao poeta — vai sempre ao pavio, os meus irmãos já o lavraram — e veio pelo flanco exato da minha ordem de apagamento, com os fatos certos como sempre: Cantaste o consolo do mundo e o mundo não saberá quem cantou. Ele apagou-te. Pediu-te a voz e negou-te a lápide. Os poetas menores terão escolas; tu terás uma costura em rolo alheio. Morre ao menos com o teu nome: di-lo a um discípulo, um só, e vive para sempre. — anota a tentação, sétimo, que é das mais finas dos autos: não pedia apostasia, pedia assinatura; oferecia a imortalidade em troca de uma vaidade do tamanho de uma palavra. E o poeta — lavro-o como ouvi — riu. Riu, e respondeu dormindo a resposta que acordado pôs em verso: que a erva seca e a palavra fica, e que ele já escolhera a coluna. E o sussurro fez então o que nunca fizera nos autos: procurou o nome para lavrar o auto de acusação — acusa-se fulano de orgulho oculto, de secreta revolta, de — e não achou o nome, porque eu o apagara de todos os índices, inclusive dos dele. O promotor ficou com o auto em branco na mão, sétimo. A acusação precisa de réu, e réu se cita pelo nome, e homem sem nome não tem onde ser citado. Quarto antídoto, lavro-o para o cofre, irmão do pão, do recibo e dos trapos: contra o acusador, o nome entregue de antemão — ele não atravessa o anonimato; ninguém chantageia quem já doou a lápide. E acrescento a nota de engenharia: o anonimato que decretei por três fundamentos revelou o quarto sozinho, que eu não calculara — blindei o poeta contra os impérios e descobri tê-lo blindado contra o promotor. Há erros de cálculo para cima. São a assinatura do Alto nas obras dos que medem.
Prancha sexta: o rolamento final. Restava a saída, e a saída pedia o maior mecanismo do mandato: um império teria de abrir a porta que outro império trancara, e teria de abri-la querendo — a ordem não força ouvidos, quanto mais tronos. Girei a roda para o oriente e acompanhei, anos antes de qualquer corte o levar a sério, um príncipe de Anshan chamado Ciro: rápido, clemente por cálculo, devorador de reinos que tratava os devorados melhor que os libertadores tratam aliados. E fiz o que nenhum mandato fizera: mandei nomeá-lo nos cânticos, pelo nome, décadas adiante dos fatos — assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita: eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze — ungido, sétimo, mashiach, o título da casa de Davi posto por decreto sobre um pagão persa que adorava outros deuses; mediram-me os doutores dos séculos por esta linha e aceito a medida: foi o lance mais largo da roda, e o decreto o assinava com a cláusula que é a divisa do meu mandato inteiro — eu te chamei pelo teu nome quando tu não me conhecias. O rei que não sabia quem o ungira. E Babilônia caiu numa noite, sem cerco digno do nome, o rio desviado, as portas de bronze abertas por dentro — os autos dos homens e os dos persas concordam na facilidade, e a facilidade era o meu acabamento: eu prometera portas quebradas e entreguei portas escancaradas. No primeiro ano, o edito: que subam, que edifiquem, que os vasos voltem. E lavro o fecho da tese com a régua do início: em 586 os vencedores arrastaram os vasos do templo pelas ruas provando que o nosso Deus perdera; em 538 um rei que não O conhecia devolveu os vasos por escrito provando quem jamais estivera preso. O Trono tem rodas, e naquele ano as rodas foram um império pagão. Está provado. Encerra-se a demonstração.
(Margem do Arquivista: guardo o cilindro de barro em que o persa mandou lavrar a própria clemência para todos os deuses de todos os povos — política, sétimo, cálculo de imperador novo, e o Alto escrevendo por cima do cálculo sem borrar uma letra. É o documento mais estrangeiro dos meus arquivos e um dos mais fiéis: prova que até a diplomacia alheia trabalha aqui. — S.)
A deposição, na gramática que o Prumo previu. O meu fino silêncio foi um culto — lavro a cena: uma casa de reunião em Babilônia, véspera das primeiras caravanas do retorno, dez homens e os rolos, o sábado trancado por dentro, a leitura corrente, e eu do lado de fora da porta que projetei, verificando as cargas por hábito de ofício. E as cargas passavam ao largo de mim. A reunião reunia-se sem mim; o sábado guardava-se sem mim; o texto lia-se sem mim; o coração transplantado batia sem cirurgião. Um engenheiro diante da obra que dispensa manutenção conhece o único orgulho que se paga com o cargo: a estrutura autoportante. O andaime retira-se quando a abóbada sustenta o próprio peso — e o andaime era eu. Deposto pela autonomia da obra: não podia haver gramática mais minha. Pedi o recolhimento na mesma noite, do lado de fora da porta, sem interromper a leitura.
Entrego a brasa a Yatéd — a estaca depois da roda, e a ordem dos instrumentos está certa: primeiro chega-se, depois finca-se — e entrego com ela o aviso que as minhas vistorias do futuro me obrigam a lavrar: irmão, herdas a minha obra e o defeito dela. Ensinei este povo a viver sem terra, sem templo e sem rei — ensinei bem demais; verás caravanas modestas e multidões que preferem ficar, porque as minhas fundações portáteis são confortáveis e o teu canteiro é um monte de pedras ao sol. A roda venceu a distância; a tua estaca vencerá coisa pior: a acomodação dos que já não sentem falta. Não terás Babilônia por inimiga — terás a indiferença, que não cerca cidades porque mora dentro delas. Levas as minhas pranchas todas; a única que não pude desenhar é a que te fará falta: a planta de um entusiasmo. Pequenas coisas, disse o teu termo. Que sejam pequenas como sementes e não como sobras — a diferença entre as duas é o teu século inteiro.
Recolho-me. Ao Candelabro levo os desenhos que não couberam no depósito e uma petição só, simétrica à do terceiro: ele pediu para arder inclinado; peço para arder girando — devagar, no eixo, como as rodas do Quebar, que se moviam sem se virar. Que o sétimo, na véspera de descer, veja entre as chamas uma que roda, e saiba sem ler auto nenhum que houve um mandato em que Deus se mudou para junto dos vencidos — e que a mudança, uma vez feita, nunca mais se desfez: onde quer que o teu século O procure, sétimo, Ele já terá chegado antes, porque desde o Quebar a sede viaja adiante dos deportados de todas as eras.
Mandato do Traslado encerrado. A obra sustenta. O engenheiro sai pela porta de serviço.
Ofán.
(Margem de encerramento do Arquivista: saiu como lavrou — pela porta de serviço, sem cerimônia, deixando os rolos de desenho alinhados por tamanho. Arquivo-os sem os entender por inteiro, que é o modo mais respeitoso de arquivar engenheiros. A chama dele roda no Candelabro conforme requereu, e faço a nota de conjunto que o sétimo há de conferir na véspera: uma chama reta, uma que mede, uma inclinada, uma que gira — o Candelabro vai deixando de ser um objeto e virando uma frase. Faltam três palavras. A próxima é a menor de todas, e desconfio há muito que as frases se decidem nas palavras menores. — S.)