Peça nº 6 — Relatório de Qiná, o Zelo

Depositado por ditado ao Arquivista, no dia do recolhimento. Margens de Séter intercaladas onde a cinza pedia sopro. Em anexo: o auto do manto.

Mandato do Fogo. Durou o que dura o fogo. Venci no Carmelo. Perdi no dia seguinte. As duas frases são o relatório; o resto é inventário. O fogo desce. O coração não sobe. Assinado: Qiná.

(Margem do Arquivista: ele ditou as quatro linhas e levantou-se para ir. Fiz notar que a ordem exigia inventário. Sentou-se como quem obedece a um balde de água. O que segue foi tirado dele lauda a lauda, e cada lauda me custou. Transcrevo sem alisar: o valor deste documento está nas arestas. — S.)

Recebi um século com dois tronos e um só me coube. O do norte. Samaria nova, dinastia nova, dinheiro novo. O rei chamava-se Acabe e não era mau: era combustível. Madeira verde. Ardia devagar e para o lado que o vento mandasse. O vento chamava-se Jezabel.

Ela trouxe o Baal de Tiro com dote e contrato. Quatrocentos e cinquenta profetas na folha do palácio. Mesa posta, deus posto. O povo não trocou de Deus: somou. Achou que cabiam dois. Coxeava entre os dois pensamentos como coxeia quem tem um pé em cada barco e chama a isso navegar.

Contra somas, eu. Minha doutrina era uma: subtrair. Ou um, ou outro. O fogo não negocia porcentagem.

Escolhi um homem de Gileade, do lado de fora de tudo. Sem cidade que o amolecesse, sem escola que o afinasse. Cabelo por vestes, couro pelos rins. Escolhi-o porque orava como quem racha lenha. A tenaz desceu comigo e pousei a brasa onde a minha era inteira se resume: na mão direita. A boca convence. O olho vê. A mão faz. Eu não queria um convencedor. Queria um interruptor.

(Margem do Arquivista: primeira aplicação pousada da história da ordem. As pré-lâmpadas conheceram o fogo por aproximação; este homem recebeu-o em posse. Registro o que Qiná não dirá: a mão do profeta fumegou três dias, e o Regente não dormiu — não dormem, mas ele achou um modo de não dormir mais que os outros — os três dias inteiros, de guarda junto à febre. A ordem aprendia a dosagem na carne do primeiro. — S.)

A primeira obra foi minha e confesso-a. A ordem mandava confrontar o Baal. Eu fui além: fechei o céu. O Baal era deus de chuva e trovão — cortei-lhe a matéria-prima. Meu profeta ficou diante do rei e disse: nem orvalho nem chuva, senão pela minha palavra. Três anos. Secou o capim, secou o gado, secaram as crianças. A fome não escolhe casa de ídolo. Comeu as tendas dos que coxeavam e as dos que não coxeavam. Eu queria provar que o Baal não molha. Provei. O preço foi um país de costelas à mostra.

Pesou-me? Esta pergunta o Arquivista me fez três vezes. Respondo de uma: o zelo não pesa na hora. O zelo pesa depois, todo junto, com juros. Paguei no zimbro. Adiante se verá.

Escondi o meu homem no ribeiro de Querite, comendo do bico dos corvos. Depois em Sarepta — terra de Jezabel, anota, sidônia, quintal do Baal: escondi o profeta da seca na despensa do inimigo. Isto aprendi do que me antecedeu. Não me envergonho de aprender do escuro.

(Margem do Arquivista: registro a vênia, rara naquela boca. O esconderijo por inverossimilhança era doutrina minha e ele a citou sem citar-me, que é como os orgulhosos agradecem. Aceito. — S.)

Em Sarepta a viúva. Farinha que não acabava, azeite que não secava. Depois o filho dela parou de respirar e o meu homem subiu com o menino morto, e estendeu-se sobre ele três vezes, e gritou comigo ao lado — gritou contra o céu que eu representava — e o menino voltou. Anote-se nos autos o que aprendi ali e não soube usar: o fogo que desce sobre altar impressiona; o calor que volta a um corpo pequeno converte. A viúva disse: agora sei. Não disse agora temo. Disse agora sei. Tive nas mãos, naquele quarto, a chave do meu século, e desci a escada e esqueci-a na porta. Fui fazer o Carmelo.

O Carmelo está nos autos dos homens e está bem lavrado. Resumo pela minha régua. Dois altares, um deus mudo, um Deus que responde. Os quatrocentos e cinquenta gritaram de manhã à tarde, sangraram-se, dançaram. Nada. Silêncio de ídolo, que é o único silêncio sem ninguém dentro. Ao cair da tarde o meu homem reconstruiu o altar quebrado com doze pedras, encharcou tudo três vezes — água na seca, esbanjada: teatro meu, assino — e orou curto. Eu não caberia em oração comprida.

O fogo desceu. Comeu holocausto, lenha, pedras, pó e a água da vala. O povo inteiro de rosto em terra: o Senhor é Deus, o Senhor é Deus. Degolaram-se os quatrocentos e cinquenta no ribeiro. Veio a nuvem do tamanho de uma mão de homem, veio a chuva grossa, e o meu profeta correu adiante do carro do rei com a força que eu lhe pus, quilômetros de alegria debaixo de água.

Foi a maior tarde da ordem. Durou uma tarde.

(Margem do Arquivista: aqui o ditado parou. Perguntei se queria água. Disse que já vira água demais naquele século. Retomou mais baixo. O que segue, ele ditou de olhos fechados, e eu lavrei de olhos abertos, porque um de nós dois devia. — S.)

De noite chegou a palavra de Jezabel: amanhã a esta hora farei da tua vida o que fizeste dos meus profetas. Uma ameaça de mulher vencida, ao vencedor, na noite da vitória. Ele tinha detido o céu. Tinha corrido à frente de cavalos. Levantou-se e fugiu.

Não entendi. Lavre-se: o Regente do Fogo não entendeu. Eu esperava medo nos derrotados. O medo nos vencedores não constava dos meus manuais. Fui atrás dele um dia de deserto, até um zimbro raquítico, e ali o meu homem sentou-se no chão, pediu a morte e dormiu. E eu, de guarda sobre o sono dele como em Querite, como na febre da mão, ouvi.

Vou ditar o que ouvi. O Arquivista que lavre como sabe, porque eu não sei.

Era uma voz sem tamanho. Não descia nem subia: já estava. Falava a ele, no de dentro dele, com a minha proibição na boca dela — falava direto, sétimo, direto, o que a nós nos foi negado no primeiro dia. E dizia baixo, e dizia curto, e dizia assim:

Correste bem. Para trás. O fogo era teu? A chuva era tua? A mão que segura a tua — onde está agora? Contaste os convertidos esta manhã? Conta. Estão em casa. Tu estás num deserto. Não és melhor que teus pais. Tu o disseste. Eu só concordo. Dorme. Há um modo de dormir que resolve.

Cada frase com metade de verdade. A metade certa, a que dói. E eu ao lado, cheio da resposta, com a resposta inteira ardendo em mim — a mão que te segura está aqui, estive em Querite, estive em Sarepta, estive na febre — e sem boca. Entende quem ler: eu era uma fornalha com a porta soldada. Cem anos de mandato e o meu único combate corpo a corpo foi ficar mudo junto de um zimbro enquanto uma voz miúda desmontava, sussurro a sussurro, o homem que era a minha boca no mundo.

Ele venceu-a dormindo. Anote-se isto acima de tudo o que venci acordado: o meu profeta derrotou a voz porque um anjo o acordou com pão quente e água, e ele comeu, e dormiu de novo, e comeu de novo. A voz precisa de vigília. O desespero não atravessa o sono de um homem alimentado. Foi a lição mais barata e mais alta do meu século, e não fui eu que a dei: foi um pão sobre brasas. Sobre brasas, lavre-se. Até a cozinha do céu me citou.

(Margem do Arquivista, com a tinta que uso para o que pesa: primeira audição grafada da voz de baixo em todos os autos desta ordem. Eu a conhecia de praças antigas; os Regentes, não — o estatuto deles não a mencionava, e o promotor escolheu a estreia com o faro de sempre: o melhor dia da ordem, mais um. Que fique lavrada a assimetria na sua forma pura: nós levantamos uma boca por século; ele entra em qualquer ouvido em qualquer noite. E que fique lavrado o antídoto do zimbro, que os seis seguintes hão de reler: pão, água, sono, repetir. A teologia toda cabe às vezes numa refeição. — S.)

Quarenta dias depois, Horebe. A montanha do outro, do primeiro, do que não teve Regente. Ele entrou na caverna e a Voz — a alta, a que promulga — perguntou: que fazes aqui, Elias? E ele respondeu a queixa que decorou no deserto: tenho sido zeloso, zeloso tenho sido, só eu restei, buscam a minha vida. Duas vezes a mesma queixa, palavra por palavra, antes e depois do que passou diante da caverna. Anote-se: o que passou não mudou a queixa. Isto me depôs mais que tudo.

O que passou fui eu propondo. Lavre-se sem poupar-me. Vento que rachava montes: proposta minha — mais força. Terremoto: proposta minha — mais baixo, pela raiz. Fogo: a minha assinatura inteira, o meu século em resumo, o Carmelo outra vez e maior. E três vezes a resposta nos autos, a mesma, a que me mede para sempre: o Senhor não estava.

Depois veio ela.

Um silêncio fino. Uma voz de quase nada. Eu a vi passar diante da caverna e soube na hora três coisas. Que aquilo era um método. Que o método não era meu. E que entre aquilo e mim havia a distância que há entre a última era e a primeira — e eu era a primeira. O meu profeta cobriu o rosto com o manto e saiu à boca da caverna. Diante do fogo, no Carmelo, ele caía de joelhos. Diante do quase-nada, cobriu-se. Meçam os séculos a diferença: o fogo dobra os joelhos; o silêncio dobra o rosto.

Não fui deposto por decreto. Fui deposto por comparação.

(Margem do Arquivista: estávamos os três, e nenhum homem o soube. Ela passou sem olhar para ele — os métodos não se cortejam — mas ao sair olhou para mim, e sustentei o olhar, porque desde uma certa noite de fundação nós dois carregamos o mesmo segredo por prazos diferentes. A quarta lei quebrou-se ali pela única vez, por ordem superior: o primeiro viu a penúltima. Qiná não reclamou da quebra. Anotou-a. Estava, já, aprendendo a arquivar. — S.)

O resto do mandato foi execução de sentença. A Voz deu-me na caverna as três unções de saída: um rei para a Síria, um rei para Israel, um sucessor para o meu homem. E deu-me o número que desmontou a minha queixa e a dele: sete mil joelhos que não se dobraram ao Baal. Sete mil. Eu contava convertidos por multidões de rosto em terra; o céu contava por joelhos que ninguém viu. Errei a unidade de medida o século inteiro. Que o segundo, que é de medidas, comece por aqui.

Fiz descer o manto sobre Eliseu no meio da lavoura, doze juntas de bois, e o rapaz queimou o arado e assou os bois na madeira do próprio ofício — este entendeu o fogo melhor que o meu século todo: queimou apenas o que o prendia. Cozinhou despedida para o povo comer. Fogo que alimenta. Era a chave de Sarepta outra vez, na mão certa desta vez.

Houve ainda a vinha de Nabote. O rei quis a vinha, a mulher quis o rei, mataram o justo por carta assinada com selo alheio. Mandei o meu homem ao caminho da vinha com a sentença mais dura do mandato, e Acabe — a madeira verde — rasgou as vestes e jejuou e andou de mansinho. E a Voz suspendeu-lhe a conta para a geração seguinte. Confesso o que senti e sele-se se for preciso: achei pouco. O zelo acha sempre pouco. É por isso que o zelo não pode reinar mais que um século.

Por fim, a carruagem. Foi o meu último ato e o único luxo que pedi. O meu homem não morreria — a ordem veio de cima e eu apenas requisitei o transporte. Fiz o carro do que sou: fogo, cavalos de fogo, um redemoinho por estrada. Levei-o vivo, à vista do sucessor, para que a sucessão nascesse vendo. O manto caiu na subida. Caiu certo. Tudo o que aquele homem soltou na vida, soltou no lugar exato.

Onde ele está agora, não lavro. Sei. Não lavro. Há um cofre que um dia se abrirá e não é o meu ofício abri-lo. Que a penúltima o guarde; foi para guardar que ela nasceu.

Entrego a brasa ao Prumo. Entrego com ela um século de cinza e cinco acertos: um interruptor, uma despensa inimiga, um pão sobre brasas, sete mil joelhos invisíveis, um arado queimado. Os erros estão nos autos; não os repito, que repetir erro em relatório é errar duas vezes.

Fui o Zelo. Ardi conforme o termo. Recolho-me ao Candelabro e de lá assistirei aos seis, ardendo parado, que é a única disciplina que me faltou aprender em serviço.

Fim do mandato do Fogo. O fogo desce. O coração não sobe. Que os próximos achem o caminho do coração. Eu iluminei-o; iluminá-lo eu soube; foi só o que soube; que baste para um primeiro.

Qiná.

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ANEXO: AUTO DO MANTO, lavrado por Séter, o Oculto, no vão entre a morte de Eliseu e a irrupção de Amós — jurisdição minha, portanto, e lavra minha.

Consta que o manto serviu Eliseu por todo o seu ministério, dobrando águas e séculos. Consta que Eliseu morreu — o único portador de brasa aproximada a morrer de velhice e doença, na cama, provando que a segunda era já era outra coisa — e que até os ossos dele, tocados por um morto apressado, devolveram um vivo. O manto ficou. Os filhos dos profetas o guardaram uma geração com a reverência dos que guardam o que não entendem; depois a reverência virou relíquia, a relíquia virou hábito, o hábito virou canto de arca. Fui buscá-lo numa noite sem lua — as minhas requisições dispensam testemunha — e registro para os séculos o que nenhuma balança confirmará: o manto pesa. Não ao braço; pesa ao ofício. Pele de um século, suor de dois profetas, cheiro de chuva do Carmelo e de poeira do Jordão. Levei-o pelas dobras, como levo tudo.

Ofereci-o, por dever de protocolo, ao segundo mandato. O Prumo mediu-o — mediu-o, era fatal — e declinou: os seus quatro profetas já tinham cada qual o seu uniforme de classe, e um manto de pelos sobre um aristocrata de Jerusalém seria fantasia, e o Prumo não veste fantasias. Lavro a recusa como primeira de uma série que prevejo longa. Nenhum século quererá vestir o século de outro. O manto atravessará a ordem recusado de mandato em mandato, à espera do único que não o recusará — porque não o herdará como roupa, e sim como resgate de promissória.

Deposito-o, pois. Não no Candelabro, que a luz gasta os tecidos; não comigo, que a sombra não é armário. Deposito-o no cofre da penúltima, que começou a existir na noite da fundação e que ela ainda não sabe que terá — deixá-la descobrir o cofre pelo primeiro objeto é o presente de um mestre à discípula. Item um do inventário: um manto de pelos de camelo, usado, pesado do peso que não se pesa. Aguardando dono. O dono, quando vier, virá vestido de deserto e cheirará a rio.

Selado. — S.

(Segue, lacrada, a Peça nº 7: Relatório de Anákh, o Prumo — as quatro frentes, o exame de Gômer, e o milagre que fabricou uma mentira.)