A Véspera

Malfegor desceu à biblioteca no dia seguinte com o anexo da Mesa debaixo do braço, em cópia não autuada — a primeira cópia não autuada da sua vida, tirada à mão, de madrugada, com a aplicação de um noviço.

Pousou-a sobre a mesa de Asmodina sem uma palavra, porque as palavras, entre os dois, eram a língua estrangeira. Pediu perícia: — Confira.

Asmodina conferiu. Leu o cruzamento como lia tudo, da assinatura mais antiga ao deferimento mais novo, acompanhando com a ponta do dedo a convergência das décadas para a galeria do fundo, e Malfegor viu o momento exato em que os números dela, refeitos do avesso, sem vegetal e sem amor, lhe devolveram o próprio mapa — viu porque o dedo parou, um segundo, sobre a data da diligência, que constava do rodapé em código de rotina, e retomou. Ela não perguntou como ele obtivera a cópia, nem por que a trouxera, nem o que aconteceria com quem a trouxera. Fechou o anexo, alinhou-o com a borda da mesa, e disse, no tom de quem encerra um empréstimo:

— Está conferido. Os números batem. — E depois, tirando o lápis da orelha, sem mudar de voz: — O senhor ainda tem o meu levantamento. Fique. Já está com quem confere três vezes, e a partir de agora — bateu de leve no anexo, duas vezes, como quem acorda a coisa — aqui dentro vai fazer falta um catálogo que não minta.

Foi a única despedida que houve, e Malfegor só entendeu que fora uma despedida muito depois, quando entender já não emendava nada.

A palavra desceu os subsolos pelo caminho das palavras verdadeiras, sem ofício, de véspera em véspera não: de mão em mão, no mesmo dia. E naquela noite — uma noite comum, sem auditoria, a casa de olhos abertos — o depósito convocou-se pela primeira vez em trinta anos fora do calendário, sem a guarda involuntária do medo alheio, exposto como um formulário ao relento. Malfegor foi. Nenhuma missão cobria aquela noite; nenhum relatório a esperava; a credencial dele dormia na gaveta ao lado da mentira que a alimentava. Foi assim mesmo, e subiu depois sem saber classificar o que fizera, porque o ato não tinha rubrica: fora, salvo melhor juízo, a primeira coisa inteiramente sua em quatro mil e setecentos anos.

A assembleia tratou de uma pauta só. O Irmão Protocolo, dedos em riste, defendeu a dispersão com a melhor doutrina da sua contabilidade: o mordomo fiel preserva o rebanho; Deus não exige desperdício; a semente guardada vale mais que a semente pisada, e havia — enumerou — precedentes humanos abundantes de igrejas que sobreviveram escondendo-se, catálogo que ele conhecia porque constava do acervo. — Não é fuga — concluiu. — É gestão. O Patrão não computa presença física; computa perseverança, e perseverar disperso ainda é perseverar.

A velha das velas esperou o balde pingar duas vezes.

— O irmão quer dispersar para durar — disse. — Durar para quê? Para rezar melhor no século que vem? Nós não somos semente, irmão; semente espera a estação, e nós não esperamos nada, essa é a nossa única doutrina inteira. Se amanhã é véspera, amanhã tem culto. Não porque enfrentamos, que enfrentar é orgulho de guarnição; não porque queremos cair, que mártir com vontade é suborno de sangue. Porque é véspera. — E, como o Protocolo abrisse os dedos para nova enumeração, ela o desarmou com a aritmética da casa: — O irmão computa tudo. Compute isto: em trinta anos, nunca faltamos a uma véspera. Faltar agora seria a primeira oração que fazemos para alguém daqui de baixo. Eu não gasto joelho com a Gerência.

A discussão ainda deu voltas, porque as discussões são devotas do próprio rito, até que alguém — foi o porteiro jovem — fez a pergunta simples de quem abre portas: e o senhor, perguntou ao canto onde o Velho ocupava o banco de sempre, o senhor o que vai fazer?

O torturador de matrícula antiga levantou a cabeça com a lentidão de quem negocia com o próprio pescoço, olhou o balde, o teto interditado, a infiltração que ninguém quisera consertar, e disse o que já dissera uma vez para ninguém:

— Eu venho.

Não se votou, porque votar era censo. Mas o estagiário das atas, se ali estivesse, teria registrado que a assembleia terminou nesse instante, e que o resto foi liturgia de saída, de dois em dois, cada um levando, como o escriturário, as duas respostas — com a diferença de que agora se sabia qual das duas pesava mais, porque o Velho a pusera na balança com dois quilos de palavra.

A diligência cumpriu-se na véspera seguinte, à hora do culto, conforme o despacho.

Desceram em coluna: a Guarda em formação de flagrante, o notário com a prancheta de campo, Vorax à frente com o mandado, e Malfegor atrás, na qualidade de perito, carregando a maleta de lacres como se carrega uma condenação de alça. A galeria do fundo estava iluminada — iluminada para fora, sem disfarce, a luz vazando por baixo da porta interditada como uma confissão assinada —, e de dentro vinha o hino, e o hino não estava na altura das turbinas. Estava acima. Pela primeira vez em trinta anos, o culto cantava para ser ouvido, e a Guarda, treinada para o arrombamento, desacelerou sem ordem diante daquela porta que não se defendia.

Vorax bateu, pelo rito: três pancadas de mandado.

A porta abriu antes da terceira, e o porteiro jovem, segurando-a contra a corrente de ar do corredor, disse à coluna inteira, com a cortesia de sempre:

— Entrem, que apagam.

Estavam todos. Estavam mais do que todos: Malfegor contou de ofício quarenta e três — o número o atravessou como atravessam os números que não devem nada ao acaso e não provam nada por isso mesmo — quarenta e três de velas acesas, os bancos completos e gente de pé ao fundo, rostos que ele nunca vira nas vésperas e que tinham vindo precisamente porque a notícia correra: a casa avisara, sem querer, que ali havia algo que valia uma diligência, e no Inferno, como em toda repartição, nada recruta melhor do que a proibição com data marcada.

Vorax entrou com o mandado erguido e o leu do princípio ao fim, na voz de edital, sobre o hino que não parou nem subiu, apenas o acomodou — e quando terminou, no silêncio técnico que se seguiu, a congregação respondeu ao mandado como respondia a tudo o que descia de cima com selo:

— Deferido.

O notário olhou para Vorax. Vorax olhou para o mandado. Não havia, no rito do flagrante, previsão para o consentimento.

A lavratura foi um suplício de campos vazios. Resistência oferecida: nenhuma, e o notário escreveu nenhuma três vezes e riscou duas, porque nenhuma parecia erro. Tentativa de fuga: prejudicada — a porta estivera aberta. Material oculto: a rubrica morreu na praia da mesa dos textos, onde as pastas do acervo aguardavam em pilhas alinhadas, amarradas com barbante de expediente, encimadas por um índice geral em duas vias que Asmodina entregou ao notário em mãos, conferido, datado, com a lauda de instruções de guarda que ela redigira para o apreensor: manusear com luva; não desfazer a ordem; a ordem é informação. — Confere antes de lacrar — disse ela ao rapaz da prancheta, no tom de balcão que era o seu único tom. — Depois do lacre ninguém confere mais, e eu não estarei disponível para reclamações.

A Guarda apagou as velas por procedimento, uma a uma, com o abafador regulamentar, e a congregação assistiu ao apagamento como assistia à liturgia, em silêncio de largura exata; só a velha não entregou a sua — inclinou-a, antes que o guarda chegasse, e acendeu com ela a lanterna apagada que o guarda trazia pendurada no cinto, gesto tão fora de qualquer previsão que o homem deixou fazer, e saiu dali com a lanterna acesa sem saber que carregava, pendurado no uniforme, o fogo que viera apagar.

Saíram de dois em dois, por prudência da escolta, no mesmo ritmo de sempre, na mesma porta de sempre, e Malfegor, postado junto ao batente com a maleta de lacres, foi vendo passar um por um os quarenta e três: o porteiro que lhe dissera entre, que apaga; o Irmão Protocolo, que fora ficando e ficara, a contabilidade vencida pela véspera; a velha, que lhe fez ao passar um pequeno aceno de cabeça, na medida regulamentar; e por último o Velho, que parou um instante diante dele, olhou a maleta, olhou o perito, e não disse nada, e o nada durou o comprimento exato de eu venho, e seguiu.

Coube a Malfegor lacrar o depósito. Executou a perícia final de praxe — ambiente, vestígios, inventário — e lavrou tudo, e ao chegar ao canto do teto encontrou a infiltração trabalhando, o pingo caindo no balde de zinco no intervalo de sempre, marcando o tempo de ninguém, e procurou na maleta o lacre que coubesse naquilo, e não havia, porque não se lacra o que pinga, e consignou no auto, no campo de observações, com a letra mais firme do repertório: persiste no local vazamento antigo, sem responsável identificado, que as diligências não alcançam.

Releu a frase. Deixou.

Conferiu o lacre da porta uma vez, duas, e a terceira — a que valia, a que ninguém via, a que era dele — Malfegor a fez de dentro, de memória, com a mão parada sobre o metal frio, e ninguém que passasse no corredor teria distinguido o gesto de uma vistoria.

Era uma vistoria. Era a outra coisa. A casa nunca soube a diferença; ele já não sabia se havia.