A Antessala
MOVIMENTO III — A REPRESSÃO
O Ofício Profano completou-se em silêncio, como as coisas eficazes. Das três salas requisitadas ao arquivo morto fizeram-se sete; das sete, um método. Vorax não contratara torturadores — a casa os fornecia por catálogo e ele os dispensara com uma frase que correu os corredores em maré baixa: dor é moeda local; herege não se compra com moeda local. Contratara, em vez disso, peritos. A sala maior do Ofício abrigava agora a Mesa de Perícia Textual, doze leitores em turnos contínuos, debruçados sobre a papelada ordinária da casa — atas, requisições, lavraturas, avaliações de desempenho —, procurando nos documentos o que Vorax lhes ensinara a procurar: o excesso de alma no traço. O Inferno inteiro, sem saber, passara a redigir sob censura devocional, e Malfegor, tomando conhecimento da Mesa, reconheceu nela, ampliado e dotado de orçamento, o ofício que ele exercera sozinho por quatro milênios — com a diferença de que ele lia orações apreendidas dos homens, e a Mesa lia o expediente dos colegas. Vorax abolira a fronteira entre o acervo e a casa. Doravante, todo documento era suspeito de ser, por dentro, outra coisa.
Publicou-se também o Edital. Vorax o redigira nos moldes humanos, com o título histórico — Edital do Tempo de Graça, trinta dias para a autodenúncia com abatimento de pena —, e o Jurídico o devolvera com uma única glosa, riscando a palavra graça por falta de amparo regimental. Saiu Tempo de Desconto, e o desconto produziu, na primeira semana, três autodenúncias, todas falsas: um servidor da expedição que se declarou devoto para obter transferência, um segundo que confessou fé alheia por engano de formulário, e um terceiro que não confessou coisa nenhuma inteligível mas insistiu em ser preso, por motivos que a perícia classificou como carência de instância superior. Vorax mandou soltar os três com nojo técnico e criou, por portaria, a infração de simulação de fé — e Malfegor, lendo a portaria, mediu o tamanho novo do problema: a casa começara a fingir devoção para subir na vida. O Ofício, criado para extinguir o fenômeno, acabava de dotá-lo de vantagens funcionais.
O escriturário do 9º caiu pela porta que a bíblia de qualquer inquisição prevê e nenhum réu acredita: a própria.
Caiu em duas etapas. A primeira foi a Mesa: suas lavraturas de sentença, amostradas de rotina, acusaram o que o laudo chamou de misericórdia residual — adjetivos de pena onde o Manual pedia adjetivos de peso, uma tendência estatística a arredondar castigos para baixo, e, num caso, a palavra coitado inserida e rasurada, mas rasurada mal, com a hesitação de quem risca um sentimento e não uma palavra. Era a doutrina do Irmão Protocolo executada ao pé da letra: lavrar com repugnância, assinar com ressalva — e a ressalva, sendo sentida, ficara nos autos. A contabilidade da outra parte, descobria-se, deixava rastro nesta.
A segunda etapa foi ele mesmo. O escriturário leu o Edital no quadro de avisos, releu, copiou o número da portaria, e apresentou-se ao balcão do Ofício para uma consulta que ele qualificou, com a voz de quem já ensaiara, de hipotética: se um servidor, por exemplo, tivesse frequentado reuniões cuja natureza ignorava ao frequentá-las, o desconto do Edital alcançaria a hipótese? O atendente do balcão, treinado por Vorax, respondeu que sim, que alcançaria, e pediu-lhe, para fins de instrução da hipótese, nome e matrícula — e o escriturário, que carregava as duas respostas da assembleia e não conseguira largar nenhuma, deu ambos, porque negar a identidade ao balcão ser-lhe-ia tão impossível quanto negar a dúvida ao teto. Foi autuado no ato, como consulente. A dúvida, lavrou Vorax no despacho de instauração, é a fé em estágio probatório; quem consulta a antessala já mora na casa.
O interrogatório deu-se na sala 3, com o estagiário requisitado como notário — a designação até o fim dos tempos revelara-se, afinal, uma carreira — e Malfegor presente na qualidade de perito, por convocação sem carimbo. Ele entrou na sala atrás de Vorax, e o escriturário, erguendo os olhos, reconheceu-o.
Malfegor viu o reconhecimento nascer, e viu, no instante seguinte, o que o reconhecimento virou: alívio. O escriturário baixou os olhos com a serenidade súbita de quem entende tudo ao contrário — os nossos têm alguém lá dentro —, e não o denunciou, não por cálculo, mas por doutrina, porque no depósito não se perguntava o setor de ninguém, e Malfegor recebeu aquele sigilo como se recebe uma sentença: o homem que ele viera periciar acabava de protegê-lo, de graça, na moeda que a casa não cunhava.
Vorax abriu os trabalhos pelo rito. Mandou o réu jurar dizer a verdade, e como não houvesse ali Evangelho, tomou-lhe o juramento sobre o Regimento Interno, edição consolidada, e o escriturário jurou sobre o Regimento com a mão trêmula de quem pressente que está sendo herege duas vezes. Seguiu-se a qualificação, a leitura da portaria, e então Vorax consultou o volume que trouxera — Malfegor leu a lombada: Directorium, e um nome em latim —, encontrou a página por hábito, e começou.
— Nos autos de 1483 — disse, no tom de quem cita súmula —, assentou a autoridade que não se pergunta ao réu se crê, pois a pergunta ensina a resposta. Pergunta-se o que crê. Portanto. — Ergueu os olhos. — O que crês?
— Não sei — disse o escriturário, e era exatamente verdade, e foi exatamente o pior.
— "Não sei" não é objeto de crença. É estado de instrução. — Vorax voltou uma página, paciente. — A autoridade prevê o caso: o réu que alega ignorância crê que a ignorância o salva, logo crê em salvação, logo crê. Confessa que crês.
— Confesso que não sei se creio.
— Lavre — disse Vorax ao notário — fé em estágio probatório, confessada por dúvida. — E ao réu, com a primeira e única gentileza da sessão: — O senhor acaba de economizar três audiências. A dúvida é a antessala; quem confessa a antessala confessou a casa. Resta o endereço da casa.
O escriturário calou-se, e o silêncio dele tinha a largura exata de um corte, e Malfegor reconheceu a técnica com um orgulho que não pôde autuar. Vorax não insistiu. Não precisava, e fez questão de explicar por quê, no tom didático que reservava para as testemunhas de acusação futuras: a tortura fora descartada por inócua — o réu trabalhava havia séculos a três mesas de distância dela, e a dor, no Inferno, era paisagem —; restava ao Ofício a única pena que a casa temia, e Vorax a enunciou consultando não o Directorium, mas o Regimento sobre o qual o réu jurara: baixa de matrícula. O desligamento dos quadros. A despublicação. — O senhor não será punido — disse Vorax, fechando o volume. — Punição é vínculo. O senhor será desligado: sem matrícula, sem prontuário, sem constar. O senhor conhece a casa: o que não consta não é. Reflita na cela sobre a diferença entre arder e não constar, e amanhã me diga o endereço.
— Ele não vai dizer — comentou o notário depois, recolhendo a ata, com a isenção dos que escrevem tudo e não assinam nada.
— Não vai — concordou Vorax, sem contrariedade. — Não precisa.
E estendeu a Malfegor, para juntada, o anexo que a Mesa concluíra naquela tarde: o cruzamento integral das requisições de velas do 9º subsolo, série histórica, deferimento por deferimento, assinatura por assinatura, convergindo, década após década, para a galeria de serviço do fundo e para um depósito desativado por infiltração — o mapa de Asmodina refeito do avesso, sem vegetal, sem trezentas noites, sem amor, pelos mesmos números e com a mesma exatidão, porque os números serviam a qualquer devoção.
— Ninguém delatou — disse Vorax, e havia na voz dele a nota que Malfegor mais temia: a gratidão. — Os autos delataram. Os autos sempre delatam, senhor perito; é a vocação deles, e é por isso que esta casa vencerá: nós somos a única fé cujo deus responde por escrito. — Guardou o volume na estante, sob o retrato sem legenda. — A diligência será na próxima véspera de auditoria, hora do culto, flagrante coletivo. O senhor estará presente. Como perito. — E, já de costas, com a cortesia dos que não pedem: — Afinal, ninguém conhece aquele material melhor.
Malfegor recolheu o anexo, conferiu-o uma vez, duas, e a terceira conferência não veio, porque a terceira era a que valia e ele não quis saber o que valia ali. Subiu ao Departamento pelo caminho comprido, o das caldeiras, e no caminho redigiu mentalmente, no foro íntimo, a peça mais curta da sua carreira: uma véspera de prazo, um endereço condenado, trinta devotos sem sentinela, e um perito com a informação inteira dobrada no bolso interno, do lado onde antes andaram a oração do cais e a via do interessado.
O regulamento mandava calar. A casa mandava calar. A missão mandava calar. Malfegor foi dormir com as três ordens em cima da mesa e reparou — sem autuar, já não autuava — que nenhuma instância dentro dele as havia protocolado.