O Autor Desconhecido
A cobrança de Vorax chegou sem carimbo, que era o modo mais grave de chegar. Um bilhete de próprio punho, dobrado uma vez, sobre a mesa de Malfegor: Quatro vésperas, senhor perito. A convivência que não produz autos chama-se cumplicidade. Espero o relatório consolidado até a auditoria. V.
Malfegor leu o bilhete duas vezes e uma terceira, e reparou que a terceira, a não regulamentar, tornara-se a primeira que valia. O bilhete era juridicamente nada e hierarquicamente tudo: sem carimbo, não existia; não existindo, não admitia recurso. Vorax aprendera com a Gerência a arte de mandar por vias que não respondem. Ou aprendera com o outro Chefe, pensou Malfegor, e autuou o pensamento, e a autuação voltou com uma observação à margem, em letra que ele preferiu não periciar: indefiro.
Sentou-se para redigir o consolidado na noite anterior à auditoria — a noite em que a casa inteira olhava para os próprios papéis, a noite protegida, e ele escolheu essa noite sabendo o que ela protegia e não autuando o que sabia.
Começou pela prosa de sempre. Aos tantos dias, em diligência continuada, o perito signatário. A máquina funcionou por três parágrafos: local, frequência, estrutura, a mesa dos textos, o sistema de cópias. No quarto parágrafo, era preciso descrever o rito, e Malfegor descreveu o rito, e foi no rito que a caligrafia virou.
Ele só percebeu duas páginas depois, quando parou para molhar a pena, e releu.
O relatório estava exato. Nenhum fato faltava, nenhum floreio sobrava; um auditor encontraria ali tudo o que um auditor procura. Mas a sintaxe — a sintaxe tinha mudado de repartição. As frases vinham em períodos curtos, com pausas que não eram vírgulas, e sim respirações; os fatos apareciam em ordem de gratidão, não de gravidade; o pingo do balde de zinco, que num relatório são três palavras de ambientação, ocupava frase própria, com verbo no presente, o pingo marca um tempo que não é da casa, e a frase seguinte começava com maiúscula de espanto. A congregação era descrita pelos gestos, e os gestos pela luz, e a luz — Malfegor conferiu três vezes — a luz era o sujeito de quatro orações consecutivas. Na descrição do frasco, o texto dizia a gota ensina pela queimadura, que era tecnicamente uma perícia e liturgicamente um versículo. E o parágrafo final, que devia consolidar risco, enquadramento e recomendação, consolidava outra coisa: enumerava o que a seita tinha — as velas gastas, os silêncios na largura dos cortes, o costume de agradecer sem fato gerador — na cadência exata de uma ladainha, cada item começando pela mesma palavra, têm, têm, têm, e o perito signatário percebeu que estava lendo, da própria letra, no próprio formulário, com o próprio número de protocolo, a quarta espécie. O relatório não pedia nada. O relatório agradecia.
Ele o releu inteiro mais uma vez, agora como perito, buscando o ponto da virada — o parágrafo, a linha, a palavra onde o funcionário parara de escrever e o outro começara —, e não encontrou. Não havia emenda. A caligrafia era uma só, do cabeçalho ao fecho, os tês cortados na altura do Manual, e essa era a perícia mais grave que Malfegor já lavrara em quatro mil e setecentos anos: o documento não continha infiltração. O documento era todo de um autor só, e o autor sabia liturgia, e o autor era funcional, e o autor assinava Malfegor.
O procedimento correto tinha nome, número e prateleira. Material devocional de autoria interna: auto de apreensão, lacre, rubrica Outros, encaminhamento ao Ofício Profano — ao gabinete de Vorax, que esperava justamente um consolidado, e receberia dois documentos em um: a prova da seita e a prova do perito. Malfegor mediu o procedimento correto com o cuidado de quem mede uma queda.
Depois fez o que a casa lhe ensinara a fazer com o fogo: usou-o como ferramenta de expediente.
Queimou o relatório na vela da própria mesa, folha a folha, segurando cada uma até a margem da luva, e recolheu as cinzas no cinzeiro regulamentar, que existia em todas as mesas do Inferno e que Malfegor, em quatro milênios, nunca usara — a casa fornecia cinzeiros desde sempre, na expectativa paciente de que cada servidor acabaria tendo o que queimar. Enquanto a última folha ardia, ele reparou que sabia o relatório de cor, como soubera a oração do cais, de uma leitura, ou de três; que a queima, portanto, destruía a prova e preservava o texto, arquivado na memória, o órgão sem protocolo, que não aceitava descarte; e que ele estava, tecnicamente, transportando material devocional em local seguro para dentro do Ofício Profano todas as manhãs, na própria cabeça, sob a credencial mais válida da casa.
Redigiu então o segundo consolidado, o oficial, na sintaxe da repartição, e a sintaxe obedeceu, dócil, provando que o instrumento continuava afinado e que o músico é que andava tocando outra coisa. Estrutura hierárquica difusa; liderança textual identificada; facções internas, duas, com potencial explorável de cisão; recomenda-se prosseguimento da infiltração até mapeamento completo da rede de requisições. Cada frase era verdadeira. O conjunto era uma lacuna com moldura de relatório: não constava Asmodina pelo nome, não constava o mapa vegetal, não constava a velha das velas, não constava o Velho — constava elemento idoso, participação ritual passiva, que era o Velho reduzido a uma ficha sem joelhos. Malfegor protocolou o documento e ficou um instante com a sensação nova e específica de quem acaba de esconder pessoas dentro de uma sintaxe, e a sensação não era de culpa, e não era de medo, e ele desistiu de periciá-la, arquivando-a com o resto do que não tinha campo.
Restava o cinzeiro.
O regulamento previa tudo, inclusive aquilo: resíduos de queima de documento sem baixa correspondente configuravam indício de extravio, apurável mediante ocorrência. A auditoria era na manhã seguinte. Auditores não olhavam servidores, mas olhavam cinzeiros — cinzeiro era papel confessando. Malfegor podia lavá-lo, e a lavagem seria a única mentira material da noite, a primeira das mãos e não da pena; ou podia fazer o que fez, que foi sentar-se, tomar o formulário de ocorrências, o mesmo da vela, da fonte de calor, da autoria indeterminada, e lavrar com a letra mais firme do repertório:
Ocorrência. Constatada a queima, nesta mesa, de documento de teor devocional, autoria desconhecida. O material foi destruído antes da identificação do autor. Diligências para apurar o autor: em curso. Prazo: indeterminado. O signatário responde pela apuração.
Releu. Cada frase, tomada sozinha, sustentava-se diante de qualquer instância: o teor era devocional, a autoria era — quem escrevera aquilo? o funcionário de quatro milênios não escrevera; o devoto que soubera as lacunas de cor não tinha matrícula — desconhecida no único sentido que importava; as diligências estavam em curso, estavam em curso todas as noites, véspera após véspera, onze andares abaixo; o prazo era indeterminado como são indeterminados os prazos das coisas que não dependem de deferimento; e o signatário respondia pela apuração, respondia por ela como não respondera por nada em quatro mil e setecentos anos de ponto batido. A ocorrência não continha uma palavra falsa. Continha apenas a verdade na moldura errada, que era, Malfegor agora sabia, o modo como a verdade tramitava naquela casa — e talvez em todas.
Protocolou a ocorrência. Não a arquivou na mesa: desceu, atravessou o corredor do arquivo morto, e depositou-a na prateleira 44, junto da primeira, ao lado da vela — que estava morna, ainda, outra vez, ou simplesmente sempre —, para que agora fossem três a se vigiarem, a ocorrência antiga, a ocorrência nova e a testemunha de cera, o começo de um processo, ou de um cartório, ou daquilo que os autos humanos, na rubrica que ele mesmo censurava havia quatro milênios, chamavam de altar: o lugar onde se depõe o que não se pode explicar, diante do que não se pode ver, sob a guarda do que não se pode descartar.
Subiu, bateu o ponto de saída, e o carimbo deu certo, como sempre.
Malfegor já não colecionava essas vitórias. Tinha, agora, um arquivo mais fundo, sem número de prateleira, onde uma instância sem nome deferia em silêncio, noite após noite, tudo aquilo que ele não ousava requerer — e o Movimento das vésperas continuou, e a auditoria passou sem achar nada, porque a casa inteira olhava para os próprios papéis, e os papéis, como sempre, estavam em ordem.