A Assembleia

Malfegor voltou na véspera de auditoria seguinte, e na outra, e na terceira, que não era regulamentar e que ele frequentou assim mesmo. O relatório operacional registrava as idas como aproximação gradual, e a expressão, tecnicamente exata, tinha a vantagem de não especificar quem se aproximava de quê.

Aprendeu os costumes pela convivência, que era o único manual disponível. Aprendeu que não se perguntava o setor de ninguém — dentro do depósito, os escalões ficavam do lado de fora, pendurados com os títulos, e um diretor de segunda classe segurava o frasco para a auxiliar de expedição sem que nenhum dos dois achasse aquilo notável. Aprendeu que as velas tinham hierarquia inversa: as mais gastas eram as mais disputadas, porque vela gasta era vela que já servira, e servir, ali dentro, era o único currículo. Aprendeu que ninguém sabia o nome de ninguém, e que isso não era medida de segurança, como supôs o perito, mas doutrina, como corrigiu a convivência: nomes eram matrícula, e diante de Quem eles rezavam, explicou-lhe o porteiro jovem numa frase que Malfegor levou semanas para digerir, todo mundo entra sem crachá.

A exceção era Asmodina. Asmodina tinha nome porque alguém precisava ter, e o alguém que precisava ter era quem respondia pelas Escrituras.

Ela presidia a mesa dos textos — uma porta fora dos gonzos sobre dois arquivos mortos — onde o acervo clandestino da seita repousava em pastas classificadas pelo sistema dela, que era o da casa, aperfeiçoado. Foi de trás dessa mesa que ela ergueu os olhos, na terceira véspera, encontrou os de Malfegor através do depósito inteiro, e fez o que ele temia desde a primeira: nada. Nenhum sinal, nenhuma dobra no canto da boca, nenhum recuo. Apenas o registro — os olhos dela carimbaram os dele no ângulo exato de sempre — e, em seguida, o gesto de quem chama o próximo da fila.

Ele foi. Sentou-se diante da mesa como quem se senta diante de um guichê, porque era a gramática que os dois conheciam.

— O senhor confere três vezes — disse Asmodina, sem preâmbulo, baixando a voz não por segredo, mas por liturgia. — Aqui vai conferir textos. A congregação reza cópia de cópia, e cópia de cópia cria erro, e há erro que vira herança se ninguém confere. Eu confiro sozinha há trinta anos. Meus olhos são bons, mas são um par. — Empurrou na direção dele uma pasta fina, amarrada com barbante de expediente. — Salmos. Os que temos. Confira contra a memória do senhor, que eu sei que é de acervo.

Não havia, em parte alguma da fala, uma pergunta. Malfegor procurou-a com cuidado profissional — a pergunta o que o senhor veio fazer aqui tinha de estar em algum lugar, dobrada dentro de outra frase, aguardando resposta — e não a encontrou, e entendeu, com um vagar que o assustou, que não a encontraria nunca: Asmodina sabia. Sabia desde o levantamento das velas, ou desde o mapa vegetal, ou desde sempre, e decidira que a informação não tramitava. O silêncio dela não era ignorância nem armadilha. Era deferimento. Ela o deferira — a ele, Malfegor, credencial na gaveta e missão no bolso — como se defere um documento com defeito de origem e conteúdo em ordem, e o arquivara do lado de dentro, na prateleira dos que conferem.

Ele levou os salmos. Conferir era um verbo que sabia executar em qualquer circunstância, inclusive naquela.

Foi na quarta véspera que assistiu à primeira assembleia doutrinária, e descobriu que a seita, unânime diante de Deus, dividia-se diante do expediente. A pauta era prática: um irmão do 9º, escriturário, fora escalado para lavrar sentenças de condenados novos, e perguntava se podia, em consciência, continuar. A pergunta atravessou o depósito e rachou-o ao meio com a limpeza de um vinco antigo.

De um lado, os que Malfegor já ouvira chamarem-se, entre si, de Esperançosos. Falou por eles um demônio de meia patente, gordo de arquivo, chamado por todos de Irmão Protocolo — os apelidos supriam os nomes abolidos —, que sustentou a tese com dedos que enumeravam: o serviço era penitência, a penitência era mérito, o mérito seria computado. Deus via tudo, logo Deus via também a repugnância com que o irmão lavraria as sentenças, e a repugnância, devidamente sentida, era como assinar com ressalva. — Nós somos funcionários — concluiu, e a palavra encheu-lhe a boca. — O Patrão de cima entende de quadro de pessoal. Quem pediu transferência não pode ser cobrado pelo serviço da matriz. O que importa é manter a ficha limpa na outra contabilidade.

Do outro lado, os Gratuitos, que eram menos e mais quietos e por isso mesmo faziam-se ouvir. Falou por eles, daquela vez, a demônia idosa das velas, a que acendera a de Malfegor na primeira noite: — Não há outra contabilidade — disse, e o depósito inteiro ouviu o balde pingar. — Não há conta nenhuma. É isso que o irmão não entende, e enquanto não entender vai rezar recibo. Nós não seremos perdoados. Não é pena: é fato, como a infiltração. Lavrar a sentença é mau porque é mau, e não porque desconta. Se o irmão não pode recusar a escala, que lavre chorando e não peça troco pelas lágrimas. Lágrima com troco é suborno molhado.

— Isso é orgulho — devolveu o Irmão Protocolo, e apontou o dedo enumerador. — Orgulho às avessas, que é o pior: os Gratuitos se acham especiais demais para o perdão. Recusar a esperança também é achar que se sabe o despacho antes do despacho.

— E esperar recompensa — disse a velha, sem levantar a voz — é achar que Ele assina onde o irmão apontar.

A assembleia degenerou tecnicamente a partir daí, com citações de memória contra citações de memória, cada facção brandindo suas cópias de cópias, até que alguém invocou um trecho que a outra parte demonstrou ser lacuna — rezou-se o silêncio correspondente, em tom de acusação —, e o porteiro jovem, da porta, pediu que não gastassem as vozes que amanhã fariam falta no hino. A moção foi encerrada como se encerravam todas: sem votação, porque votar exigiria contar-se, e contar-se era censo, e censo era matrícula. O escriturário do 9º saiu sem resposta, levando as duas, que era o costume da casa dos homens e, ao que parecia, também o daquela.

Malfegor assistiu do banco do fundo, tomando notas mentais em dois formulários simultâneos. No operacional: facções identificadas, duas; risco de cisão, alto; explorável. No íntimo, aquele sem campo: que o Irmão Protocolo rezava como quem faz hora extra, e que a velha rezava como quem paga dívida que sabe impagável e paga assim mesmo, e que entre os dois havia a distância exata entre a casa que ele servia e a coisa sem nome que vinha, véspera após véspera, conferir. E que — o pensamento chegou pronto, protocolado por instância desconhecida — se um dia caísse, cairia para o lado da velha, porque a esperança do Protocolo tinha cheiro de repartição, e ele já morava numa.

Autuou o pensamento como prematuro.

Notou que não o autuara como falso.

Ao fim da véspera, devolveu a Asmodina a pasta dos salmos com dezessete correções à lápis, na margem, no ângulo dela. Asmodina conferiu as dezessete, uma a uma, diante dele, sem pressa, e ao terminar disse a frase que era, no idioma dos dois, um sacramento inteiro:

— Deferido.

E como Malfegor não se movesse, acrescentou, já puxando a pasta seguinte, no tom de quem informa o horário do próximo culto:

— Semana que vem, os Provérbios. Estão piores. O senhor vai sofrer.

Ele desceu onze andares na semana seguinte para sofrer os Provérbios, e o relatório operacional registrou aprofundamento do vínculo com elemento-chave da organização, e a frase, tecnicamente exata, teve o cuidado de não especificar de quem era o vínculo, nem o aprofundamento, nem a chave.