O Ofício das Lacunas
O mapa de Asmodina, cruzado com o calendário da casa, entregava a periodicidade: as requisições de velas adensavam-se nas vésperas de auditoria. Malfegor levou dois dias para entender e, entendendo, admirou: a véspera de auditoria era a única noite em que o Inferno inteiro olhava para os próprios papéis e para nada mais. A seita se reunia sob a proteção do medo alheio. Não precisava de sentinelas; a casa montava guarda para ela, de graça, debruçada sobre si mesma.
Ele desceu na véspera seguinte, sem ofício na mão, sem lanterna, com a credencial deixada na gaveta — o que o regulamento chamava de irregularidade e a missão chamava de disfarce, e Malfegor preferiu não decidir qual dos dois estava praticando.
Bateu na porta do depósito. Duas batidas, sem código, porque não conhecia o código.
Não havia código. A porta abriu antes da terceira batida, e o demônio que abriu — jovem, dois ou três séculos, o rosto de quem ainda não aprendeu a desconfiar ou já desaprendeu — não perguntou nome, matrícula, setor, motivo. Olhou-o um instante, o instante exato de reconhecer que ali estava alguém, e disse:
— Entre, que apaga.
Referia-se à vela junto à porta, que a corrente de ar do corredor fazia penar. Malfegor entrou. Puseram-lhe nas mãos uma vela apagada, sem instrução; ao lado, uma demônia idosa inclinou a dela e acendeu-a, e ele compreendeu que era assim que a luz circulava ali dentro: ninguém acendia a própria vela. O fogo não tinha dono. Passava.
O depósito era baixo, comprido, interditado havia três décadas por infiltração, e a infiltração continuava lá, pingando do canto do teto num balde de zinco em intervalos regulares, com a paciência das coisas que não dependem de deferimento. Ninguém consertara o vazamento. Malfegor demoraria a entender que ninguém queria consertá-lo: o pingo marcava o tempo do culto como um relógio sem corda que alguém, em algum lugar, continuava dando. Ao redor, em bancos feitos de caixas de arquivo morto, cerca de trinta. Todos os escalões. Reconheceu dois do refeitório, uma auxiliar da expedição, e — pelas costas, pela inclinação particular de quem passou séculos curvado sobre bancadas — o torturador de matrícula antiga do 7º, o que pedia licença. Ninguém o apresentou a ninguém. Fizeram-lhe lugar num banco cheio, o que, numa casa onde cada palmo era disputado em processo, valia por um sacramento.
O culto começou sem anúncio. Simplesmente, num dado momento, o silêncio mudou de espécie.
Rezaram primeiro o que Malfegor levou algum tempo para reconhecer, não porque estivesse irreconhecível, mas porque estava reconhecível demais: era o Pai Nosso do acervo, o Pai Nosso apreendido, reconstruído a partir das cópias censuradas que ele próprio despachava havia quatro milênios. A sintaxe vinha contaminada da casa — Pai nosso, que estais nos céus, conforme informado; santificado seja o Vosso nome, salvo melhor juízo — e a congregação respondia às pausas não com amém, palavra que os autos jamais lhes haviam entregado inteira, mas com a única fórmula de assentimento que a língua deles possuía:
— Deferido.
Malfegor riu por dentro, no princípio. Tinha o riso pronto, treinado, o riso técnico do perito diante do erro de catalogação, e a matéria não faltava: o hino cantado na altura exata do zumbido das turbinas, para que o prédio cantasse junto sem saber e nenhum ouvido de fora distinguisse o culto da máquina; o ofertório em que se depositava, numa caixa, não dinheiro, mas formulários em branco — o bem mais precioso da casa, roubado de si mesma; a leitora que tropeçava nos trechos latinos e os resolvia com a pronúncia do Manual de Redação. Ele riu por dentro de tudo isso, e o riso foi diminuindo sem pedir licença, porque no meio da oração vinham as lacunas.
Onde a censura cortara, eles não emendavam. Guardavam silêncio na medida exata do corte — duas palavras de silêncio para duas palavras cortadas, uma linha de silêncio para uma linha —, e retomavam adiante, e o efeito era o de um muro onde faltam pedras e ninguém as repõe para que se veja que faltam. Rezavam inclusive o que não tinham. Rezavam sobretudo o que não tinham. E Malfegor, acompanhando com o ouvido de ofício, percebeu que conhecia aquelas lacunas uma por uma, na largura e no lugar, como se conhecem as próprias assinaturas: os cortes eram dele. Quatro mil e setecentos anos de tesoura criteriosa, convertidos, do outro lado do arquivo, em liturgia. A congregação inteira fazia silêncio dentro dos silêncios que ele fabricara, e os habitava, e Malfegor esteve, durante toda a oração, na situação de um homem que visita uma casa desconhecida e encontra os próprios móveis.
Depois veio o frasco.
Era pequeno, de vidro pardo de farmácia, e circulou de mão em mão sem cerimônia visível, cada um vertendo no dorso da própria mão uma gota, uma só. Água benta de contrabando — a perícia dele a identificou pelo efeito antes do rótulo: a gota queimava, um ponto de queimadura nítida, e cada um recebia a sua, fechava os olhos o tempo de uma pontada, e agradecia. Não à água. Não ao vizinho. Agradecia para cima, para o teto interditado, para além do vazamento, na direção de onde nunca descia recibo. Quando o frasco chegou a Malfegor, ele verteu a gota por dever de disfarce, e a dor foi menor do que esperava e maior do que qualquer coisa em quatro milênios, e ele disse obrigado porque a liturgia mandava e a cobertura exigia, e a palavra saiu inteira, sem esforço, encontrando a boca já no feitio dela, como sai uma assinatura.
O culto terminou como começara, sem anúncio. Saíam de dois em dois, espaçados, por prudência, devolvendo as velas à caixa da porta — as velas eram da comunidade, só a queimadura era de cada um. Malfegor deixou-se ficar por último, por instinto de perito, para ver o local sem gente.
Não ficou por último.
O torturador de matrícula antiga permanecia no banco da frente, e Malfegor, da sombra do fundo, o viu ajoelhar-se com a lentidão de quem negocia com os próprios joelhos, de frente para o balde de zinco e para o pingo que continuava marcando um tempo de ninguém. O velho rezou em voz alta, porque não havia mais de quem se esconder, e a voz era a de quem conversa, sem fórmula:
— Não peço, porque sei que para mim não há previsão. Não é queixa. Está certo assim, e o Senhor sabe melhor que eu por quê. — O pingo caiu no zinco, uma vez, duas. — Agradeço o dia. Agradeço as licenças que me deixaram pedir. Agradeço poder agradecer, que já é mais do que se devia a alguém como eu. — E depois de um silêncio que não correspondia a corte nenhum, que era dele, lavrado por ele: — Amanhã venho de novo. O Senhor não precisa vir. Eu venho.
Levantou-se pelo método inverso, apagou a última vela com os dedos, por economia, e saiu sem ver Malfegor, ou vendo-o e não achando que fosse assunto.
Malfegor ficou onde estava. Procurou dentro de si o riso técnico, para encerrar a diligência como a começara, e não o encontrou; procurou, no lugar do riso, a fórmula que classificasse o que acabava de presenciar, e as fórmulas compareceram todas, obedientes, quatro milênios delas, e nenhuma serviu; procurou por fim a razão de estar ainda ali, parado, no escuro cheirando a pavio morto, muito depois de encerrada a coleta de indícios, e desistiu de procurar, o que não lhe acontecia desde antes de 1348.
Subiu os onze andares. Sentou-se à mesa. Redigiu o relatório operacional em prosa exata — local, dia, número de presentes, rito observado, material circulante — e chegou ao campo de observações, o campo em que escrevera, a vida inteira, o que se escrevia quando não se sabia o que escrever.
Não escreveu.
Ficou olhando o campo em branco por um tempo sem medida regulamentar, e o campo em branco olhou de volta, do tamanho exato de uma lacuna, e Malfegor o deixou assim — a primeira lacuna lavrada por ele do lado de dentro — e protocolou o relatório incompleto, e apagou a luz da mesa com os dedos, por economia, gesto que não era seu até aquela noite.
O silêncio não tinha campo. Ficou com ele assim mesmo.