A Planilha
MOVIMENTO II — A INFILTRAÇÃO
O método de Vorax tinha quatorze séculos e cabia numa frase, que ele pronunciou entregando a credencial: antes de infiltrar, mapear; a fé deixa rastro contábil. Malfegor recebeu a frase com respeito técnico. Era o primeiro chefe da sua carreira que acreditava em alguma coisa, e o que Vorax acreditava, com fervor de convertido, era em documentação.
Começou pelas velas.
O Inferno mantinha estoque de velas votivas, fato que ninguém estranhava porque constava do catálogo de suprimentos, e o que consta do catálogo dispensa explicação. A origem, Malfegor conhecia de ofício: material apreendido da clientela humana que, esgotado o prazo de guarda, era reaproveitado como bem de expediente, sob a rubrica iluminação de emergência — numa casa onde a única emergência concebível seria a luz faltar, e a luz, ali, era a última coisa que faltava. O estoque existia porque descartar exigia formulário e reaproveitar exigia apenas carimbo, e entre o formulário e o carimbo a casa escolhera o carimbo fazia dez mil anos, em decisão que ninguém tomara e todos cumpriam.
As requisições contavam a história que ninguém lera. Crescimento de trezentos e quarenta por cento em cinquenta anos, concentrado nos subsolos 7º a 11º, sempre em quantidades modestas — duas velas, três velas, nunca mais de cinco —, sempre em formulários irrepreensíveis, assinados, justificados, deferidos. Malfegor examinou duzentas requisições e não achou uma rasura. Achou pior: achou capricho. Os formulários dos subsolos eram os mais bem preenchidos da casa, letra devota de quem preenche como quem acende. E entendeu, com um frio técnico, a natureza da coisa: não havia contrabando. A seita se abastecia pelos canais oficiais, requisição por requisição, deferimento por deferimento, e o Inferno inteiro financiava o culto ao seu Inimigo pela simples razão de que os papéis estavam em ordem. A fraude perfeita não existia; existia o deferimento perfeito.
Depois, a gentileza.
Os dados vieram dos Recursos Hostis, que os forneceram com alarme e em regime de urgência, porque os Recursos Hostis viviam da denúncia interna como o rio vivia da margem, e a denúncia interna despencava. No 7º subsolo, queda de sessenta e um por cento em três décadas. Um grampeador emprestado fora devolvido, caso único na história da casa, registrado em ata com duas testemunhas. Um servidor segurara o elevador para outro, e o outro, em vez de registrar a ocorrência por retardamento de porta, dissera obrigado — a palavra constava do boletim interno, entre aspas, como corpo estranho. E havia o caso que os Recursos Hostis classificavam de gravíssimo: um torturador do quadro efetivo, matrícula antiga, que passara a pedir licença antes de começar. A produtividade dele não caíra. Caíra outra coisa, que o formulário de avaliação não media, e os avaliados das mesas do 7º haviam começado, informava o boletim com repugnância, a agradecer.
Para cruzar os dados, faltava o histórico profundo, e o histórico profundo morava na biblioteca do acervo apreendido, e a biblioteca era Asmodina.
Malfegor a conhecia como se conhecem os colegas de milênios: por carimbo. O dela era exato, sem borrão, aplicado sempre no mesmo ângulo, e vinha acompanhado de correções à lápis nas classificações alheias, inclusive nas dele — sobretudo nas dele, que eram as segundas melhores da casa e portanto as únicas que valiam o lápis. Encontrou-a entre as estantes do acervo, conferindo lombadas com a ponta do dedo, como quem toma pulso.
— Requisições de velas por subsolo, últimos cinquenta anos, e o senhor quer cruzar com alguma coisa — disse ela, antes que ele abrisse a boca. — Todos querem cruzar com alguma coisa. Dado sozinho não condena.
— Levantamento de rotina.
— Rotina — repetiu Asmodina, e devolveu a palavra à prateleira com o resto das classificações erradas. — O senhor está com credencial nova no bolso, e credencial nova range. Não precisa me contar. Preciso só saber o período, para não lhe dar material demais. Material demais é como oração comprida: esconde o pedido.
Trouxe-lhe as caixas em quatro viagens, recusando ajuda porque a ordem das caixas era dela. E junto com a última, sem que Malfegor pedisse, pousou na mesa um rolo de papel vegetal, amarelado nas bordas, coberto de uma trama fina de pontos e linhas à tinta, com anotações marginais em letra miúda e datas que recuavam décadas.
— O que é isto?
— Levantamento próprio. Requisições de velas, todas, desde o início da série, plotadas por andar e por década. — Ela alisou o papel com o dorso da mão, gesto de quem alisa lençol de doente. — Eu catalogo, senhor perito. Quem cataloga vê padrões, e quem vê padrões não consegue parar. Isto aqui me custou trezentas noites e não me pediu ninguém. O senhor vai notar que os pontos migram: começam dispersos, no 9º, há meio século, e vão se adensando e subindo. O que era poeira virou desenho.
Malfegor olhou o desenho. Era um mapa de calor sem uma única palavra proibida, e era, também, sem que nada nele o dissesse, a coisa mais parecida com um vitral que ele já vira em papel de expediente.
— E a senhora nunca reportou.
— Reportar o quê? — Asmodina recolheu o lápis da orelha e corrigiu, no auto que ele preenchia, a rubrica de empréstimo. — Requisição deferida não é infração. Padrão não é crime. Eu reporto fatos, e isto aqui — bateu de leve no vegetal, duas vezes, como se acordasse a coisa com cuidado — isto aqui ainda não é um fato. É um costume. O senhor sabe a diferença, porque cataloga quase tão bem quanto eu: o fato cabe no formulário. O costume é o que sobra em volta.
Ele levou as caixas, o vegetal e a correção. Na porta, ela o alcançou com a última exatidão do dia:
— Devolva o mapa como pegou. Não é da casa. É meu. — E, já de costas, no tom com que se informa horário de funcionamento: — Se um dia deixar de ser meu, prefiro que esteja com quem confere três vezes.
Malfegor parou dois degraus abaixo, fez a conta da terceira conferência — a que não era regulamentar, a que ninguém vira, a que ele executava sozinho e sem testemunhas desde o cais —, não achou resposta que coubesse em voz alta, e desceu.
Desceu até o 7º.
O subsolo o recebeu com o barulho de sempre e alguma coisa a menos que ele demorou a nomear. Nomeou no segundo corredor: era o rancor. O barulho do 7º continha trabalho, vapor, ferramenta, grito conforme a norma — e não continha rancor, e um subsolo sem rancor era como uma oração da quarta espécie: tudo em ordem, menos o essencial. Um servidor lhe segurou a porta de vaivém. Outro, carregando lote, pediu licença, e a licença foi dada, e os dois seguiram como se aquilo se fizesse. Nas mesas de trabalho, os avaliados de sempre, o expediente de sempre; e ao passar por uma delas Malfegor ouviu, baixo, do avaliado para o torturador de matrícula antiga, no intervalo entre um procedimento e outro, a palavra do boletim, a palavra entre aspas, dita sem aspas.
Seguiu o mapa de Asmodina de memória, porque consultá-lo em público seria expô-lo, e havia decidido — sem autuar a decisão — que o vegetal não seria exposto. Os pontos convergiam, nas últimas décadas, para a galeria de serviço do fundo, onde ficava um depósito desativado por infiltração, interdição antiga, placa de acesso proibido com a tinta descascada na medida exata de quem renova a proibição mas não a placa. Malfegor postou-se diante da porta com o ofício na mão, pronto para a fórmula do flagrante.
De dentro não vinha som. Vinha o contrário: um silêncio grosso, habitado, de muitos juntos e calados, que é um silêncio que não se confunde — o vazio não precisa segurar a respiração. E por baixo da porta, fino como lembrete, o cheiro que ele já periciara uma vez de lanterna em punho: pavio. Não queimado. Queimando.
O procedimento correto mandava entrar. A missão mandava esperar: infiltrado não flagra, frequenta. Malfegor escolheu a missão com um alívio que não constava dela, guardou o ofício, subiu os onze andares pela escada para dar tempo ao rosto, e redigiu o relatório da noite em prosa exemplar: as requisições, os índices, a convergência, o depósito, a recomendação de aproximação gradual. Fonte dos dados históricos: levantamento do próprio perito.
Releu a linha. Sabia o nome que faltava nela, sabia que citá-lo geraria diligência, busca, apreensão do vegetal, inquérito sobre trezentas noites que não pediram licença a ninguém. Economia processual, portanto. A fórmula parou de pé, tramitou, foi arquivada pela instância de sempre — e a instância, desta vez, não devolveu recibo.
Ele reparou na falta do recibo.
Não abriu ocorrência.