O Termo
A convocação chegou por engano à mesa de Zagam, que a entregou a Malfegor em mãos, no refeitório, com a solenidade de quem se livra de uma granada. O engano constava do próprio papel: encaminhe-se ao servidor competente, dizia o despacho, e Malfegor observou que era a primeira vez, em quatro mil e setecentos anos, que a casa o chamava de competente por escrito. Guardou o papel. Havia um começo de arquivo pessoal em tudo.
O Ofício Profano fora instalado, à falta de rubrica orçamentária, dentro do próprio Departamento de Censura e Apreensões, em três salas requisitadas ao arquivo morto — de modo que o órgão criado para combater o fenômeno passou a funcionar a onze prateleiras da vela que continuava morna, informação que não constava de lugar nenhum porque as duas ocorrências tramitavam em segredos diferentes. Na porta, uma placa provisória, escrita à mão sobre a placa anterior: OFÍCIO PROFANO — ENTRADA RESTRITA, e embaixo, em letra menor, do próprio punho de Vorax: a restrição inclui os autorizados.
Vorax recebeu-o de pé, entre caixas por abrir e uma parede já pronta. A parede era a única coisa concluída do órgão inteiro: prateleiras de jurisprudência humana, quatro séculos de manuais encadernados em pele de algum animal que Malfegor preferiu não periciar, lombadas com títulos em latim e, ao centro, em moldura sóbria, o retrato de um dominicano de olhar cansado. Não havia legenda. Vorax não apresentou o retrato e Malfegor não perguntou, e nesse silêncio a dois ficou estabelecido que ambos sabiam quem era, o que valia por um aperto de mãos.
— O senhor foi indicado — disse Vorax — e a indicação foi conferida por mim, que não confio em indicações. Li sua pasta funcional. — Abriu-a sobre a mesa; era espessa como um missal. — Quatro milênios de triagem devocional. Perícia no cais executada com exação. Nenhuma promoção, o que atesta que o senhor não agrada, e quem não agrada não conspira. Nenhuma sugestão desde 1348, o que atesta juízo. E isto — Vorax ergueu uma folha avulsa com a ponta dos dedos, como relíquia —, isto foi o que decidiu. Uma ocorrência aberta pelo senhor contra fonte de calor não autorizada, autoria indeterminada, prejuízo não constatado. O senhor autuou o morno, senhor perito. Em quatorze séculos de ofício, nunca vi zelo assim. É desse material que se fazem os incorruptíveis.
Malfegor agradeceu com a cabeça, na medida regulamentar, e não corrigiu o elogio. Corrigi-lo exigiria explicar por que autuara a vela, e ele não sabia por que autuara a vela, e as perguntas cuja resposta não se sabe devem permanecer, por prudência, sem enunciado.
A missão foi exposta em oito minutos: indícios de culto organizado nos subsolos; requisições anômalas de velas cruzadas com um surto de gentileza no 7º; necessidade de um infiltrado que soubesse liturgia o bastante para não errar de joelho. — Os meus inquisidores conhecem o combate — disse Vorax —, mas o combate vem depois. Antes vem a convivência, e para conviver com devotos é preciso alguém que leia oração como quem lê contracheque: sem mover a alma. O senhor lê quarenta e três por dia há quatro mil e setecentos anos e permanece funcional. O senhor é, tecnicamente, imune. — Vorax sorriu pela primeira vez, e o sorriso era o de um colecionador diante de peça rara. — A imunidade, senhor perito, é a qualificação mais escassa desta casa. Ninguém mais chega perto do material sem termo.
E o termo veio à mesa.
TERMO DE EXPOSIÇÃO VOLUNTÁRIA, série 1, exemplar nº 1 — o formulário que o Jurídico prometera oportunamente fora elaborado, impresso e numerado em uma noite, confirmando a lei da casa segundo a qual a única coisa veloz numa repartição é aquilo que a isenta. Malfegor leu-o em regime de perícia, cláusula a cláusula. O servidor declarava expor-se por livre vontade a material devocional apreendido, em qualquer grau de concentração. A casa ficava isenta de efeitos, sequelas e conversões, inclusive parciais. Os sintomas deviam ser reportados em formulário próprio (a ser elaborado oportunamente, dizia a cláusula sexta, e Malfegor reconheceu a assinatura do estilo). E a via terceira destinava-se ao interessado — sem definir se o interessado era o servidor, a casa, ou algum terceiro que as partes preferiam não nomear.
— Uma dúvida — disse Malfegor, caneta em punho. — Se a exposição é de risco, por que voluntária?
— Porque o risco recusado gera indenização — respondeu Vorax, sem pausa —, e o risco desejado gera termo. A casa não paga pelo que o servidor quer.
Malfegor olhou a frase por dentro, achou-a perfeita, achou-a horrível, não achou defeito. Assinou as três vias. A caneta correu leve, mais leve do que o assunto pedia, e ele autuou mentalmente a leveza — sensação incompatível com a gravidade dos autos — e arquivou a autuação, e desta vez nem notou o esforço, o que era, embora ele não dispusesse do instrumento para medi-lo, o pior resultado até então.
Restava o preço. Vorax o enunciou de costas, já guardando a pasta funcional, no tom de quem menciona o óbvio:
— Concluída a operação, o Ofício encaminhará à Gerência proposta de promoção do senhor. Com parecer favorável. — Pausa exata. — A tramitar oportunamente.
Ali estava a palavra, entregue sem disfarce, quase com honestidade: oportunamente, o advérbio com que a casa dizia nunca, o mesmo da cláusula sexta, o mesmo do Jurídico, o pronome de tratamento do jamais. Malfegor a recebeu como quem recebe troco conferido: sabia o valor, sabia que era pouco, sabia que era o combinado. E aceitou. No relatório íntimo que redigiu no caminho de volta — havia muito ele redigia relatórios íntimos, por falta de outro foro —, consignou que aceitava a missão tendo em vista a perspectiva de progressão funcional, e a frase parou de pé, e tramitou, e foi arquivada sem ressalva pela única instância que a leu.
Que a frase mentia, a instância também sabia. Mas não havia campo para isso no formulário, e o que não tem campo, aprendera Malfegor em quatro mil e setecentos anos, espera.
Saiu do Ofício ao fim do expediente, com a via do interessado dobrada no bolso interno, do lado que ficava o papel do cais antes de virar prova. O caminho para a saída passava pelas onze prateleiras. Malfegor não parou na 44. Não conferiu a vela, não releu a ocorrência, não abriu o lacre de Outros para ver a oração que agora, com o termo assinado, tinha licença legal para manusear em qualquer grau de concentração.
Não precisava. Sabia tudo de cor.
Era esse o problema, e não constava de formulário nenhum.