O Cais

A requisição chegou à mesa de Malfegor com o carimbo de URGENTÍSSIMO, o que explicava os nove dias de atraso: os assuntos urgentes tramitavam por fila própria, mais curta e por isso mais disputada, e a disputa consumia o tempo que a fila economizava. O ofício vinha do setor de Aquisições e solicitava perito em material devocional para diligência no cais, motivo omisso, sigilo recomendado, ressarcimento de despesas negado preventivamente.

Malfegor desceu.

O cais de Aquisições ocupava a margem esquerda do rio, que corria devagar por cláusula contratual. O transporte fluvial fora terceirizado havia três mil anos, e desde então o rio atrasava; o barqueiro atual, quarto da concessão, atracava quando atracava e descarregava as almas em lotes, como quem descarrega correspondência de que ninguém sente falta. As almas desciam, recebiam senha, e entravam na fila dos guichês, onde eram conferidas, pesadas, classificadas por gravidade e encaminhadas ao destino conforme a sentença. O sistema processava, em média, todas as almas que chegavam, o que era considerado, pelos padrões da casa, um milagre — palavra que o relatório anual substituía por desempenho satisfatório.

Zagam esperava no guichê 9, o desativado, que por estar desativado era o único onde se podia conversar.

— Vieram na barca de terça — disse, sem cumprimentar, porque o cumprimento constava como opcional no regimento e Zagam era econômico. — Três. Desembarcaram, pegaram senha, foram chamadas. E aí.

— E aí.

— Vem ver.

Estavam num banco encostado à parede dos fundos, as três, com um cobertor requisitado do almoxarifado e uma caneca de café do refeitório, frio conforme o contrato coletivo. Almas em espera. Não podiam entrar: a documentação voltara indeferida. Não podiam sair: não existia formulário de saída, pela razão sólida de que jamais fora necessário. Não podiam, a rigor, estar ali, e no entanto ali estavam, na única condição que o Inferno inteiro desconhecia — a de quem não deve nada e não espera nada —, e uma delas jogava cartas com o barqueiro nos intervalos da concessão, e ganhava.

— Indeferida como? — perguntou Malfegor. — Indeferida por quem?

Zagam estendeu-lhe as três guias de condenação. Estavam corretas. Malfegor conferiu duas vezes, e depois uma terceira, que não era regulamentar e que ele executou assim mesmo, com a sensação de estar cometendo um pequeno luxo. Autuação em ordem. Fundamentação em ordem. Cálculo da pena conferido, selo válido, tramitação límpida. E sobre cada uma, atravessado no campo da homologação final, o carimbo: INDEFERIDO. Sem assinatura. Sem número de matrícula. Sem órgão emissor. A tinta era vermelha, de um vermelho que não constava do catálogo de suprimentos, e Malfegor, que conhecia o catálogo de suprimentos como outros conhecem os salmos, sentiu diante daquele vermelho uma familiaridade sem origem, que é a pior espécie de familiaridade que existe.

— Recurso? — perguntou, por perguntar.

— Recurso a quem? — disse Zagam. — Não tem remetente. A gente recorre para cima, o de cima pergunta quem indeferiu, a gente responde que não sabe, o de cima devolve pedindo que a gente identifique a autoridade. Já foram quatro rodadas. Na última, o despacho veio com uma observação. — Zagam baixou a voz até o mínimo sindical. — Identifique-se primeiro o órgão inexistente, para que se possa oficiá-lo.

Malfegor releu a observação. Era, tecnicamente, perfeita. O problema não tinha solução porque tinha sido formulado com competência.

— E eu? Por que a perícia?

Zagam olhou para os lados, constatou o de sempre — ninguém olhava para os lados no Inferno havia eras, por falta de expectativa — e tirou do bolso interno um papel dobrado em quatro, dentro de um saco de provas lacrado com o lacre errado, porque o lacre certo estava em falta.

— Achado no chão do desembarque. Perto de onde as três desceram.

Malfegor abriu o saco com as luvas de praxe. O papel era interno: formulário de requisição de suprimentos, série corrente, usado no verso. E no verso, uma caligrafia que ele reconheceu antes de querer: letra de repartição, treinada em milênios de despacho, os tês cortados na altura exata do Manual de Redação. Um demônio escrevera aquilo. Um colega. Talvez um vizinho de corredor. E o que o colega escrevera, na sintaxe torta da casa, cheia de negativas empilhadas e fórmulas de estilo, era, sem qualquer dúvida pericial, uma oração.

Não pedia nada. Não barganhava, não ameaçava, não oferecia. Agradecia. Agradecia algo não especificado nos autos, dirigido a quem de direito, com cópia para o Altíssimo, expressão que o redator riscara e reescrevera três vezes, como quem não encontra o pronome de tratamento adequado porque o pronome de tratamento adequado não existe em nenhum manual desta ou de outra repartição, e terminava, sem fecho protocolar, sem nestes termos, pede deferimento, com uma única palavra isolada na última linha, que Malfegor leu duas vezes, e depois uma terceira, não regulamentar:

Obrigado.

Ele preencheu o auto de apreensão em pé, no balcão do guichê 9, com a letra mais firme do seu repertório. Classificou o material sob a rubrica Outros, que era onde se guardava o que não pedia nada, lacrou, protocolou, recolheu. Recomendou a Zagam sigilo, contenção e, sobretudo, nenhuma iniciativa, conselho que Zagam recebeu com o alívio de quem já o praticava por vocação. Depois tomou o caminho de volta, e tomou o mais longo, pelo corredor das caldeiras, onde ninguém passava, e foi só ali, entre o vapor e a ferrugem, que Malfegor se deu conta de que sabia a oração de cor. Não a decorara: soubera-a, de uma leitura, ou de duas, ou da terceira, a que não valia. A memória era um órgão sem protocolo, que arquivava sem autuar e não aceitava descarte.

O procedimento correto seria registrar o fato. Malfegor não o registrou. Por economia processual, disse a si mesmo, e a fórmula era boa, e ele a repetiu mais uma vez no caminho, para ver se dava certo como o carimbo do ponto.

Não deu.


Documento — fac-símile anexado aos autos

SETOR DE AQUISIÇÕES — CAIS DE DESEMBARQUE FORMULÁRIO DE DEVOLUÇÃO DE ALMA

Requerente: _______________________ Alma a devolver (nº de série): _______________________ Motivo da devolução: _______________________ Fundamentação legal: _______________________ Autoridade competente: _______________________

[atravessado sobre todos os campos, em tinta vermelha fora de catálogo, o carimbo:] SEM PRECEDENTE

Obs. do arquivista: formulário criado após o fato para que o fato tivesse onde não caber.


Documento — Dicionário Oficial do Inferno (excertos)

FÉ, s.f. — Infração de 1º grau. Adesão a ente não homologado, sem contrato, sem contrapartida e sem prazo, características que a distinguem da lealdade (ver LEALDADE), que é a mesma coisa com chefia visível. Detectável pelos sintomas: gentileza fora de escala, requisições anômalas de velas, gratidão sem fato gerador. Incurável por decreto; tratável por alvará (ver LEGALIZAÇÃO). Ver também: EPIDEMIA.

ORAÇÃO, s.f. — Correspondência dirigida a destinatário que não acusa recebimento. Classifica-se em comercial, diplomática e ameaçadora; a quarta espécie, que não pede nada, não se classifica. Material de apreensão obrigatória. Ver também: CONTRABANDO.

ESPERANÇA — Verbete suprimido. Ver FÉ, de que é a forma com prazo.

MILAGRE, s.m. — Não consta. Ver DEFEITO ADMINISTRATIVO.