O Expediente

MOVIMENTO I — O EXPEDIENTE

Malfegor chegou ao Departamento de Censura e Apreensões às sete em ponto, como fazia há quatro mil e setecentos anos, e carimbou o cartão de ponto que ninguém conferia desde a Queda de Constantinopla. O carimbo era, tecnicamente, desnecessário. Malfegor o considerava a parte mais importante do dia: era a única coisa, no Inferno inteiro, que dependia exclusivamente dele e dava certo todas as vezes.

O expediente começava pela triagem. Sobre a mesa, o lote da madrugada: quarenta e três orações interceptadas, dois terços de um rosário, uma vela votiva ainda morna e um santinho de Santa Rita de Cássia, advogada das causas impossíveis, que Malfegor catalogou sob a rubrica Material de Concorrência Desleal e despachou para o arquivo morto sem levantar os olhos. Levantar os olhos era desaconselhado pelo Manual. O Manual não explicava por quê, e Malfegor havia aprendido, em quatro milênios e sete séculos, que as instruções sem justificativa eram precisamente as que existiam por algum motivo.

As orações, ele leu. Era o serviço. Alguém precisava verificar se continham conteúdo subversivo, e todas continham, por definição, de modo que o trabalho de Malfegor consistia em confirmar, quarenta e três vezes por dia, aquilo que o formulário já sabia antes dele. Havia orações de todos os tipos: as comerciais (peço a graça de passar no concurso), as diplomáticas (que seja feita a Vossa vontade, mas), as ameaçadoras (se o senhor não curar minha mãe eu paro de acreditar), e, mais raras, as que não pediam nada. Essas eram as piores de catalogar. Não pediam, não barganhavam, não ameaçavam. Agradeciam, às vezes, coisas que nenhum auditor conseguiria enquadrar como benefício concedido. O formulário não tinha campo para elas. Malfegor as lançava em Outros e passava adiante, e se demorava um pouco mais nessas, era apenas pelo zelo técnico de quem examina um defeito de fabricação.

A vela exigiu formulário próprio. As velas apreendidas chegavam apagadas, por norma; o transporte se encarregava disso, e o que o transporte não apagava, o clima apagava por ele. Aquela estava apagada também — Malfegor conferiu duas vezes, porque a segunda conferência era regulamentar e a primeira não valia sem ela —, mas continuava morna, como se tivesse acabado de desistir, ou estivesse apenas fingindo. No campo de observações do Termo de Encaminhamento, ele escreveu defeito de fabricação, que era o que se escrevia quando não se sabia o que escrever, e despachou-a para o arquivo morto, prateleira 44, entre um terço quebrado e a promessa por escrito de um homem que jurava nunca mais beber e cumprira, o que tornava o documento, tecnicamente, um prejuízo.

Às nove, o refeitório. Na fila, Zagam, do setor de Aquisições, oitocentos anos fingindo trabalhar com um êxito que já merecia medalha, comentou que os números do trimestre estavam estranhos.

— Estranhos como? — perguntou Malfegor, sem interesse, porque o interesse gerava comissões, e as comissões geravam relatórios, e os relatórios geravam reuniões, e as reuniões eram a única coisa ali dentro que fazia jus ao nome do lugar.

— Devoluções — disse Zagam, baixando a voz. — Três almas devolvidas. Chegaram no cais, olharam o estoque, e devolveram.

— Não existe formulário de devolução.

— Pois é — disse Zagam, e havia nele o terror sereno do funcionário antigo diante da única coisa que não pode ser arquivada: o precedente. — Pois é.

Malfegor terminou a sopa, que estava fria, como mandava o contrato coletivo, e voltou ao Departamento sem pensar no assunto, o que lhe custou algum esforço, e o esforço de não pensar num assunto, ele sabia, era a forma que os assuntos importantes tinham de bater o ponto.

Às quinze horas, a reunião semanal. O Supervisor Forneus abriu os trabalhos comunicando que as metas de tentação do trimestre não haviam sido atingidas, e que isso, conforme apuração preliminar, não era culpa de ninguém dos presentes, e portanto seria de todos. A explicação técnica ocupou quarenta minutos: os humanos, informava a Diretoria de Mercado, estavam se tentando sozinhos, em escala industrial, sem intermediários, cortando o Departamento do processo como quem corta o despachante. Um estagiário de duzentos anos sugeriu que talvez fosse o caso de comemorar, já que o resultado final era o mesmo; foi designado para redigir a ata até o fim dos tempos, e a reunião prosseguiu sem novas sugestões.

Malfegor não sugeria nada desde 1348. Naquele ano, uma sugestão sua fora aprovada por unanimidade, e ele descobrira que não existe, numa repartição, castigo maior do que a ideia que dá certo: passou o século seguinte administrando o próprio êxito e os trezentos posteriores preenchendo os relatórios do êxito, e quando enfim o assunto se encerrou, jurou a si mesmo nunca mais ser útil em voz alta. Era, de todos os seus juramentos, o único que mantivera com fervor.

No fim da reunião, o rumor das devoluções chegou à mesa por vias transversais, como chegam as notícias verdadeiras. Forneus o despachou com uma frase que Malfegor anotou mentalmente para admirar mais tarde: não existe formulário, logo não existe fato. A frase resolvia o problema. A frase resolvia, a rigor, qualquer problema, e talvez por isso mesmo o problema tenha continuado exatamente onde estava, à espera de alguém com menos talento para frases.

Às dezenove, o fim do expediente. No corredor de saída, passando diante da porta do arquivo morto, Malfegor sentiu um cheiro fino de pavio. Não de pavio queimado: de pavio queimando, que é outro cheiro, mais quente e mais vivo, e que ali dentro não tinha autorização para existir. Ele entrou. Percorreu as prateleiras com a lanterna regulamentar, chegou à 44, encontrou a vela no exato lugar do protocolo, apagada, conforme o protocolo, e morna — ainda, outra vez, ou simplesmente sempre. Tocou-a com dois dedos. A cera tinha a temperatura de uma coisa recém-abandonada, ou recém-chegada, e nenhuma das duas hipóteses cabia no campo de observações.

Malfegor fez o que fazia. Abriu uma ocorrência — fonte de calor não autorizada, autoria indeterminada, prejuízo não constatado —, assinou, protocolou e arquivou-a ele mesmo, na mesma hora, na mesma prateleira, ao lado da vela, para que uma vigiasse a outra. Depois apagou a lanterna, saiu, e carimbou o cartão de ponto na saída.

O carimbo, como sempre, deu certo.